O gatilho de Tarcísio



Viatura da PM estacionada em rua de periferia sob luzes de emergência
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

O assassinato de Thawanna Salmázio pela PM expõe a letalidade recorde e a falência do controle na gestão de Tarcísio de Freitas.

A morte de Thawanna Salmázio, 31 anos, não foi um erro de cálculo; foi o resultado previsível de um governo que trocou a inteligência policial pelo instinto de abate. Thawanna foi executada com um tiro no peito em plena Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo. A autora do disparo, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, de apenas 21 anos, estava nas ruas há parcos três meses. O crime, ocorrido na última sexta-feira, é a fotografia de uma gestão que entrega fuzis a recrutas inexperientes e espera que a paz floresça sob o rastro de pólvora.

A POLÍTICA DO ABATE

Desde que assumiu o Palácio dos Bandeirantes em 1º de janeiro de 2023, Tarcísio de Freitas — o carioca que ainda tateia o mapa paulista — preside uma explosão de letalidade que ignora as câmeras corporais e as estatísticas. A criminalidade herdada da pós-pandemia, que já fervilhava nas calçadas, encontrou no atual governo não um plano de contenção, mas um salvo-conduto para o excesso.

Sob a batuta de Tarcísio e de seu secretário de Segurança, Guilherme Derrite, o número de mortos pela PM saltou de 421 em 2022 para mais de 800 em 2025. Um aumento de quase 100% que carrega o DNA da extrema-direita: a frieza de quem trata o óbito na periferia como efeito colateral de uma guerra imaginária.

O caso de Thawanna expõe o cinismo oficial. A versão inicial da PM, que alegava agressão por parte da vítima, ruiu diante das câmeras de outros agentes. "Você atirou? Por quê?", questionou o próprio colega de farda de Yasmin. Enquanto a vítima agonizava por quarenta minutos sem socorro, a máquina de propaganda do governo tentava emplacar a narrativa do "confronto".

É a política do "atira primeiro, inventa depois". Para Tarcísio, o governador que mantém a postura de xerife com o sangue alheio, a vida de uma mãe de família na periferia vale menos do que o silêncio de um boletim de ocorrência forjado.

DADOS DA BARBÁRIE

O salto na letalidade policial sob a gestão Tarcísio de Freitas não é estatística; é política pública. Desde 1º de janeiro de 2023, o governo de São Paulo opera uma máquina de moer gente na periferia, amparada pelo desmonte dos mecanismos de controle.

Indicador de Letalidade Impacto na Gestão Tarcísio
Explosão do Sangue Salto de 421 (2022) para 834 (2025) mortos por PMs em serviço. Aumento de 98,1%.
Alvo Preferencial Jovens negros têm 3,7 vezes mais chances de morrer pela polícia do que brancos em SP.
Fábrica de Órfãos 64% das mulheres mortas por PMs em 2025 não possuíam antecedentes criminais.
Sabotagem do Controle Redução de 45% no investimento do programa de câmeras corporais (Olho Vivo).
Recrutas no Front 15% da força em áreas críticas é composta por PMs com menos de um ano de rua.

A máxima "bandido bom é bandido morto" não é um princípio de justiça; é a assinatura de Caim. Não há benção divina para o abate, nem dignidade humana construída sobre o fratricídio. Uma sociedade que se pretende civilizada não pode ser erguida sobre a vingança, essa atribuição covarde dos que se recusam a proteger Abel. O mundo não se reconstrói sacrificando irmãos à imagem e semelhança de Deus, mas provando ao agressor que a nossa dignidade é maior que a sua violência. Bandido bom não é bandido morto. Bandido bom é aquele que, vivo, cumpre o rigor da pena e trabalha para reparar o dano que causou, destinando o suor de sua punição à família de quem ele prejudicou. Justiça é reparação; o resto é barbárie.


Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Ouvidoria das Polícias de SP, Instituto Sou da Paz, SSP-SP, Rede de Proteção contra o Genocídio, Agência Pública e Ponte Jornalismo.