Tarcísio e o teto de vidro: a anatomia de um silêncio gélido

Fotografia em ângulo baixo de Tarcísio de Freitas em um corredor sombrio do Palácio dos Bandeirantes, luz lateral dramática.
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

O governador que em 2022 cobrava moralidade alheia agora silencia sobre o PCC no gabinete, licitações de um dono só e o caixa do Banco Master.

Agosto de 2022. O auditório da FAAP fervia. Tarcísio de Freitas, o candidato que vestia o figurino de técnico imaculado, sentia-se confortável o suficiente para ditar normas morais. Ao ser apertado pelo jornalista Pedro Venceslau sobre o golpismo das urnas, Tarcísio não respondeu; atacou. Devolveu com o veneno que alimentava as redes sociais da época: perguntou se o repórter não se constrangia com um "ex-preso" no páreo. Naquele palco, o Petrolão era o seu espantalho de estimação, o roteiro perfeito para quem precisava encenar uma integridade que, hoje descobrimos, tinha data de validade e um endereço bem específico no Morumbi.

A IRONIA DOS AUTOS

A ironia é uma ciência exata no jornalismo político. Tarcísio apontava o dedo para Luiz Inácio Lula da Silva chamando-o de "chefe de esquema", operando um malabarismo retórico que ignorava a realidade dos autos. Lula foi condenado por um apartamento no Guarujá — um processo mais tarde anulado por suspeição —, mas os nomes que de fato lotaram as celas da Papuda e do Paraná no escândalo do Petrolão eram os correligionários e amigos íntimos da direita que hoje orbitam o primeiro escalão da gestão paulista. O "ex-preso" de Tarcísio serve para o palanque, mas o silêncio do governador sobre os próprios aliados é o que define o tom de sua administração.

O "choque de gestão" prometido na campanha esbarra agora na frieza dos arquivos que emergem da Secretaria da Fazenda. Tarcísio precisa explicar ao povo de São Paulo quem era o verdadeiro chefe da engrenagem enquanto a sonegação fiscal de gigantes como Ultrafarma e Fastshop ocorria livremente sob a vigilância — ou a falta dela — da sua pasta econômica. O dinheiro que deveria irrigar hospitais e escolas parece ter encontrado caminhos mais largos nos bastidores de um governo que olha para o horizonte enquanto o caixa é saqueado.

A privatização da Sabesp, liquidada com o açodamento de quem tem pressa em passar o ponto antes da próxima auditoria, tornou-se o emblema de um capitalismo de compadres. Uma licitação com apenas uma empresa interessada não é livre mercado; é entrega agendada. Enquanto o patrimônio público muda de mãos sob um aroma persistente de fraude, o governador se refugia em um silêncio técnico conveniente. É a mesma mudez que cerca as relações com Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro e peça-chave no tabuleiro do Banco Master. O dinheiro que irrigou a campanha de Tarcísio não soa mais como doação, mas como uma hipoteca política vencida com juros altos demais para o contribuinte. Qual é, afinal, o favor que o Estado deve a uma instituição que coleciona passagens pelas páginas policiais?

O buraco, porém, não é apenas fiscal. Ele cheira a pólvora. Em 2024, a prisão de um ex-segurança pessoal de Tarcísio, membro confesso do PCC, rasgou o véu da segurança institucional do Palácio. É constrangedor: como o homem encarregado de proteger a vida do mandatário do estado mais rico da federação pode ser, ao mesmo tempo, soldado da maior facção criminosa do continente? A inteligência estadual falha — ou finge falhar — enquanto o crime organizado lava a alma em postos de combustíveis e operações na Faria Lima.

O "ex-preso" de 2022 hoje é quem precisa atravessar a jurisdição do Morumbi para fazer o trabalho que Tarcísio ignora: investigar onde o PCC esconde o dinheiro que o governo paulista não quer ver. A polícia de São Paulo aperta o gatilho com uma eficiência que orgulha os grupos de ódio, mas segue cega para o crime que veste terno e opera bombas de combustível.

A moralidade de palanque de Tarcísio de Freitas não resistiu ao primeiro exame de laboratório da vida real. O teto quebrou. E os estilhaços estão cortando a biografia do técnico que jurava ser diferente.

Dossiê Status da Apuração
Sonegação Fiscal Investigações apontam rombos em setores varejistas sob a gestão da Sefaz-SP.
Privatização Sabesp Licitação de oferta única (Equatorial) levanta suspeitas de favorecimento.
Conexão Master Relações entre doadores de campanha e o Banco Master sob escrutínio.
Infiltração PCC Prisão de ex-segurança do governador confirma braço da facção no Palácio - operação Tai-Pan da Polícia Federal.
Lavagem de Dinheiro Operações federais suprem a inércia estadual na Faria Lima e postos.

Fontes: Sabatina Estadão/FAAP; Inquéritos PF 2024; Relatórios Sefaz-SP; Dados de Licitação Sabesp/Equatorial.