Beca da MT-07: as pistas como terapia e recomeço

Mulheres que pilotam

Beca da MT-07: as pistas como terapia e recomeço

Quem vê Rebeca Cristina inclinar a moto nas curvas não imagina o peso do luto que ela carrega no retrovisor. Entenda como ela transformou as duas rodas em sobrevivência.

Entrevista por Atlas das Vozes, Rico Russo
26 de maio de 2026
Rebeca Ferreira, a Beca da MT-07, equipada com macacão e capacete, montada em sua moto Yamaha MT-07 preparada para pista
Beca da MT-07: "Voltei para o único lugar que me mantinha verdadeiramente viva". (Foto: Arquivo Pessoal)

Rebeca Cristina Ferreira veste macacão 2MT, feito sob medida, ajusta o capacete KYT e monta na sua Yamaha MT-07. Nos encontros de estrada e nos autódromos paulistas, ela é simplesmente a "Beca da MT-07". Quem a vê deitar a moto cinza e preta nas curvas raramente imagina o peso do fantasma que ela carrega no espelho retrovisor. Beca não corre por vaidade ou exibicionismo nas redes sociais. Ela acelera para continuar viva.

A tragédia familiar que moldou sua trajetória começou em setembro de 2023, quando seu irmão perdeu a vida em um acidente fatal de moto causado por um motorista embriagado. Tomado pelo pânico de perder a única filha restante, seu pai vendeu todas as motocicletas da casa. O isolamento forçado do asfalto durou até outubro de 2024, quando o pai também faleceu. Sozinha com a mãe, cercada pelo silêncio do luto duplo e pelo julgamento de parentes que viam nas duas rodas uma maldição, Rebeca tomou a decisão mais controversa e vital da sua vida: comprou a MT-07 e voltou para as pistas.

Atlas das Vozes: O que te empurrou de volta para esse cenário radical justamente depois de perder seu irmão e ver seu pai vender as motos da família por medo? Beca da MT-07: É uma paixão que está no DNA, não dá para arrancar. Quando meu irmão se foi, em setembro de 2023, meu pai tentou me proteger vendendo tudo. Mas quando ele também faleceu, pouco mais de um ano depois, eu me vi em um vazio absoluto. Só restamos minha mãe e eu. Foi ali que decidi voltar para o único lugar que me mantinha verdadeiramente viva. O julgamento dos familiares veio pesado. Eles me perguntavam: “Como você pode amar uma coisa que levou a vida do seu irmão?”. Tive que blindar a minha mente e encarar a verdade nua e crua: não foi a moto que tirou a vida dele. Foi um motorista bêbado que cruzou a pista em uma faixa contínua.

O risco nas pistas cobra o preço em milissegundos e a garantia de voltar inteira para casa não vem no manual. Qual é o seu rigor técnico com a proteção antes de ligar o motor? Beca: A garantia de voltar inteira não existe para ninguém no asfalto. Eu visto o meu macacão, me equipamento toda, mas o meu primeiro investimento é na proteção divina. Sempre. Por causa dessa consciência do risco real, eu tenho uma regra sagrada na vida: jamais saio brigada de casa. Sempre saio com a benção da minha mãe. Na pista, o mental precisa estar limpo. Deixo o passado no passado para aproveitar o milímetro do momento presente. Nunca descarrego frustrações ou raiva no acelerador.

O ambiente de alta cilindrada ainda é dominado por homens. Como é o choque de realidade quando você chega totalmente equipada em uma oficina ou na beira da pista? O machismo grita ou sussurra? Beca: Hoje o cenário ainda é muito desigual, nós gostaríamos de ver muito mais mulheres pilotando. No começo, quando eu chego, os olhares dos homens são sempre de espanto, de desconfiança. Mas depois que a gente entra na pista e eles veem a técnica, esse espanto vira admiração. O respeito a gente conquista na trajetória da curva.

Beca inclinando sua moto na curva de um autódromo durante um trackday, focada no traçado da pista
Evolução técnica no autódromo: o asfalto exige respeito e elimina o orgulho. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ninguém chega ao limite sem pagar pedágio. Me descreva uma situação em que você testou sua técnica e teve que engolir o próprio erro na prática. Beca: Na estrada ou no autódromo, você sempre vai encontrar alguém que anda mais e alguém que anda menos que você. O segredo da evolução é engolir o orgulho, enxergar o erro e não repeti-lo. Uma vez, em um trackday, eu insisti em inclinar a moto além do que devia. O instrutor já tinha me avisado textualmente que eu estava no limite físico do pneu e da moto. Eu fui teimosa, forcei a barra e o resultado foi o chão. Faz parte do aprendizado. O asfalto não perdoa a soberba.

O senso comum adora apontar o dedo para o motociclista quando acontece uma tragédia. Como você lida com os clichês que ouve na rua? Beca: O preconceito é imediato. Sempre que há um acidente, a sociedade solta a frase pronta: “Tinha que ser motoqueiro” ou “Certeza que estava correndo”. No caso do meu irmão, ficou provado que ele foi vítima da irresponsabilidade de terceiros, mas o estigma continua aí. Eu quero que as pessoas parem de olhar para a moto como uma arma. Para mim, ela foi uma terapia de choque. O motociclista me salvou da depressão. Fui acolhida por um grupo de amigos que se tornou a minha segunda família quando eu não tinha mais ninguém.

Quando uma garota mais nova te vê de macacão, capacete e dominando uma moto pesada, o que você espero que mude na cabeça dela sobre o próprio futuro? Beca: Eu espero servir de exemplo. Quero que, se ela tiver essa chama pelas duas rodas dentro dela, ela não se curve ao medo ou ao que a sociedade diz que é lugar de mulher. Quero que ela lute, treine e conquiste o seu espaço nas pistas quando chegar a vez dela. O asfalto também é nosso.

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