A máquina de Cláudio Castro: fraudes, offshores e facções

Matéria Especial 15/05/2026

Castro: O Arquiteto das Notas Vivas e Offshores

De propinas em mochilas ao duto bilionário da Refit: como o governador do Rio construiu um império sobre a ruína pública.

Reflexo do Palácio Guanabara em uma poça d'água com notas de Real boiando e sombras de operadores políticos ao fundo.

Por Rico Russo | Atlas das Vozes

O poder no Rio de Janeiro tem um cheiro inconfundível. Cheira a nota velha guardada em sacos escondidos em maleiro de armários, a combustível batizado e a despachos judiciais comprados na calada da noite. Cláudio Castro entendeu rápido a alquimia da sobrevivência política. A transição da sombra de vice decorativo para o centro do palco exigiu um pedágio alto. Ele pagou. E a moeda de troca foi o cofre do estado.

O Varejo Social: Catarata e Ceperj

A corrupção não nasce bilionária; ela estagia no varejo. O laboratório de Castro foi a Fundação Leão XIII e a assistência social. A Operação Catarata revelou o método: pacotes com cem mil reais em espécie entregues nas mãos do ex-governador por fornecedores, segundo o delator Marcos Vinícius Azevedo. Registros da PF mostram Castro visitando a Servlog, base de um esquema que mordia propinas de 5% a 25% em contratos de programas como Novo Olhar, Rio Cidadão, Agente Social e Qualimóvel. Um duto que sangrou mais de setenta milhões de reais. A mecânica era rudimentar, quase amadora... não, na verdade, no Rio, o crime não precisa ser sofisticado, ele só precisa ter os contatos certos. A PF indiciou Castro por corrupção passiva e peculato, com o aval do STJ.

Quando a caneta governamental passou em definitivo para suas mãos, o escândalo da Fundação Ceperj e da Uerj institucionalizou o abuso. Foram criados milhares de cargos secretos. Folhas de pagamento obscuras cujos salários eram sacados integralmente na boca do caixa por atravessadores. Essa farra eleitoreira custou a Castro uma condenação no TSE e a declaração de sua inelegibilidade. Nos tribunais superiores, a situação é um labirinto de recursos: o STJ chegou a arquivar investigações da época de vice, e a Segunda Turma do STF enterrou inquéritos após manobras da PGR. A defesa segue o roteiro padrão. Contesta tudo, fala em "fatos antigos", delações "infundadas" e anulação por violação de foro. A justiça tem seus ritmos, quase sempre convenientes.

A Graduação Bilionária: O Esquema Refit

Mas o verdadeiro salto patrimonial não estava nos fantasmas da Uerj. Estava nas refinarias e nos portos. A Operação Sem Refino, deflagrada pelo Supremo, expôs uma fraude fiscal de proporções tectônicas ligada à Refit (antiga Manguinhos). Castro assinou decretos de incentivos fiscais suspeitos para ampliar o mercado da empresa, atuando na prática como um despachante de luxo. Chegou a viajar para Nova York, participando de agendas ao lado do lobby do combustível.

O maquinário funcionava sobre três pilares. Nos portos, importadoras fraudavam a classificação de mercadorias para sonegar impostos. No exterior, o dinheiro sujo era escoado e lavado em mais de quinze offshores baseadas em Delaware e Houston, ocultando patrimônio e financiando imóveis. O terceiro pilar é o mais radioativo: a ADPF das Favelas (635) no STF cruzou dados da Operação Carbono Oculto, revelando que a Refit servia como lavanderia para facções como o PCC. A gravidade da pilhagem levou o ministro Alexandre de Moraes a bloquear 52 bilhões de reais em ativos do grupo.

Para sustentar essa arquitetura, Castro precisava de uma corte blindada. Ricardo Magro, dono da Refit, comandava o show de Miami e teve prisão decretada com alerta vermelho na Interpol. No Judiciário, a blindagem vinha de magistrados como o desembargador Guaraci Vianna, afastado pelo CNJ por dar decisões absurdas a favor da refinaria, atropelando instâncias superiores. No núcleo duro do governo, o ex-secretário de Fazenda Juliano Pasqual viabilizava a mágica contábil, e o ex-procurador Renan Saad operava os interesses jurídicos. Uma quadrilha completa de toga e crachá.

O Espelho Baiano e a Lógica do Saque

Esse ecossistema fluminense nunca operou sozinho. Castro floresceu sob o guarda-chuva de alianças táticas, dividindo palanques e omissões com figuras do bolsonarismo como Flávio Bolsonaro e Mario Frias. Eles refinam o léxico da dominação usando o estado como propriedade privada.

Fontes e Documentos Pesquisados

  • Polícia Federal: Inquéritos das Operações Catarata, Sem Refino e Carbono Oculto.
  • Supremo Tribunal Federal (STF): Autos da ADPF 635 e decisões do Min. Alexandre de Moraes.
  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE): Processos de condenação e inelegibilidade (Ceperj/Uerj).
  • Superior Tribunal de Justiça (STJ): Despachos de arquivamento e inquéritos da PGR.
  • Conselho Nacional de Justiça (CNJ): Processo disciplinar do Desembargador Guaraci Vianna.
  • Receita Federal: Relatórios de rastreamento de offshores (Delaware e Houston).
  • Ministério Público Federal: Apurações conexas ao Banco Master e gestões estaduais.
Conclusão: O Cordão Umbilical

A máquina de moer dinheiro público, no entanto, é daltônica. A mesma lógica de saque que corrói o Sudeste tem seu reflexo imediato na Bahia do ministro Rui Costa. As investigações sobre gestão fraudulenta no Banco Master desnudaram o banqueiro Daniel Vorcaro, preso em março de 2026. Durante a expansão do banco na Bahia, sob o governo Costa, operações envolvendo a venda da estatal EBAL e o cartão Credcesta operaram nas sombras, conectando Vorcaro ao ex-sócio Augusto Lima e ao PT local. Rui Costa tenta se afastar do incêndio. Afirma que encontrou Vorcaro uma única vez. Reuniões com empresários são comuns, o estado precisa dialogar com o mercado... mas dialogar não é entregar as chaves do cofre para quem o frauda. Com a prisão de parentes de Vorcaro em maio, o cordão umbilical entre o crime de colarinho branco no Rio e os acertos bilionários em Brasília e na Bahia se revela intacto.

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