SÃO PAULO: O MICROCOSMO DA NOSSA ESTRANHA ÉTICA

Um plano cinematográfico e ultrarrealista, em 16:9, captura o caos e a erosão democrática em Brasília. No centro, o edifício icônico do Congresso Nacional (o domo da Câmara e a bacia do Senado) está rachado, enegrecido por fuligem e fumaça, com a estrutura visivelmente em ruínas. À esquerda, uma imensa bandeira brasileira, esfarrapada e manchada, pendula em um mastro, revelando notas de R$ 200 (garoupas) misturadas ao tecido rasgado. Na Praça dos Três Poderes, um grande martelo de juiz (gavel) quebrado jaz sobre o asfaltorachado e sujo. Pilhas de pneus bloqueiam a via; perto deles, pequenas figuras blurred (turvas) de pessoas em postures de oração ajoelhada, enquanto ao fundo, políticos em ternos e juízes em togas andam por corredores escuros, partially concealados por sombras e escombros. A atmosfera é opressiva, sob um céu de tempestade empoeirado e faturista, com luz dramática de sunset (pôr do sol) em tons de cinza e laranja queimado, enfatizando o desespero e a futilidade.
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

Por que o motor do Brasil engasga no próprio óleo da corrupção e da má gestão?

O Brasil é essa mania de querer ser o que nunca foi. Dizem que somos o país do futuro, mas o futuro aqui parece sempre um ensaio que nunca estreia. É um eterno "ia ser", "seria", "poderia". Uma gramática de intenções que se perde no caminho entre o palácio e a padaria. E aí a gente se pergunta, com aquele nó na garganta que já virou parte da anatomia nacional: por que somos tão corruptos?

O TRILHO DO DESVIO

A corrupção por aqui não é um desvio, é o próprio trilho. Uma engenharia social tão sofisticada que faz o superfaturamento parecer custo operacional e a propina, um lubrificante necessário para as engrenagens da república não travarem de vez.

Olhemos para São Paulo, o "motor do Brasil". Esse motor, nas mãos de uma certa hegemonia que durou décadas, rodou com um óleo bem específico. Não é só sobre o dinheiro que some, é sobre o projeto que não aparece.

Lembram-se do cartel dos trens? Empresas que deveriam competir sentavam-se à mesa para decidir quem levaria a fatia do bolo. O passageiro, espremido no vagão às seis da tarde, nem imagina que o suor dele pagava o jantar de quem dividia o estado em fatias. Trinta e três indiciados, bilhões em prejuízo, e a sensação de que o transporte público é, na verdade, um transporte de riqueza privada.

O Fato: Cartel dos Trens (Caso Siemens/Alstom)
Governante: Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra
Partido: PSDB
Período: 1998 a 2008 (Investigações intensificadas em 2013)

E o Rodoanel? O anel que nunca fecha, ou que, quando fecha, aperta o pescoço do contribuinte. Seiscentos milhões em superfaturamento. O asfalto que a gente pisa é feito de uma mistura de brita, piche e cinismo.

O Fato: Superfaturamento no Rodoanel Trecho Norte
Governante: Geraldo Alckmin
Partido: PSDB
Ano: 2018 (Operação Pedra no Caminho da PF)

Depois vieram as merendas. Tirar comida do prato de criança para alimentar caixa de campanha é de uma crueldade que a estatística não consegue medir. É o futuro sendo roubado antes mesmo de aprender a ler. A Máfia da Merenda não foi um caso isolado; foi um sintoma de um sistema que vê o público como um pasto livre.

O Fato: Máfia da Merenda (Operação Alba Branca)
Governante: Geraldo Alckmin
Partido: PSDB
Ano: 2016

Agora, o assunto é a sede. A privatização da Sabesp chegou com a promessa da eficiência, mas entregou, logo de cara, uma venda com "investidor de referência" único. A Equatorial levou 15% das ações sem concorrência. Por que a pressa? Por que a falta de disputa? Anteciparam R$ 2 bilhões para os cofres do estado em pleno ano eleitoral. Coincidência? No Brasil, a coincidência é a desculpa preferida da malandragem.

O Fato: Privatização da Sabesp (Investidor único)
Governante: Tarcísio de Freitas
Partido: Republicanos
Ano: 2024

A dúvida não é se houve erro, mas por que o erro é sempre o mesmo. Privatiza-se a CTEEP por valores que o mercado questiona, entrega-se o patrimônio e o que sobra para o cidadão é a conta mais cara e o serviço que falha quando a primeira chuva cai.

O Fato: Privatização da CTEEP / Gestão Energética
Governante: Geraldo Alckmin
Partido: PSDB
Ano: 2006 (Controvérsias sobre indenizações bilionárias posteriores)
Do "Gabinete Paralelo" no MEC ao escândalo das joias sauditas; das vacinas superfaturadas da Covaxin às barras de ouro para pastores; da prevaricação no 8 de janeiro ao desvio de bens da União: a corrupção nos quatro anos de governo Bolsonaro não foi um erro, mas o projeto de um Brasil que se consome por dentro.

Somos corruptos porque permitimos que a coisa pública seja tratada como herança de família. Porque a indignação tem cor partidária e a memória é mais curta que o mandato de um suplemente. O Brasil não é para amadores, mas os profissionais que o operam estão nos deixando a ver navios. Navios que, provavelmente, também foram comprados com superfaturamento.

A gente segue assim, tropeçando em nós mesmos, perguntando os porquês enquanto as respostas estão escancaradas no Diário Oficial e nos bolsos furados do povo.

Fontes pesquisadas:

  • G1 - PF conclui inquérito do cartel dos trens em SP (2014)
  • Revista Veja - Réus por corrupção e cartel em licitação de trens em SP (2017)
  • G1/TV Globo - PF indicia 12 por superfaturamento no Rodoanel (2018)
  • Agência Brasil - Investigação sobre fraude na merenda escolar em SP (2016)
  • Agência Brasil/Carta Capital - Críticas à privatização da Sabesp (2024)
  • Exame Insight - Detalhes sobre a venda da CTEEP (2023)