Trump na TV: O roteiro cínico de quem aperta o botão e avisa que salvou o mundo
Presidente americano faz pronunciamento sensacionalista para justificar o assassinato de Ali Khamenei, ignorando o caos global que acabou de fabricar.
Por Rico Russo | Atlas das Vozes
Donald Trump apareceu na TV agora há pouco. Relógios marcavam 14h12 em Brasília. Não havia o habitual tom institucional das crises globais. O tom de espetáculo estava lá, cru. Ele narrou a morte de Ali Khamenei como quem descreve um abate.
A justificativa para os mísseis da Operação Steel Rain não precisou de provas. Ele sacudiu uns papéis impressos. Ninguém leu o que estava ali. Chamou o líder supremo de "cão raivoso". A sala com jornalistas escolhidos a dedo quase aplaudiu. É um teatro estranho. O roteiro ignora solenemente os petroleiros travados no Estreito de Ormuz e o petróleo rompendo os US$ 130.
A gente escuta o discurso e a coisa soa fora do lugar. O cara aperta o botão que explode o Oriente Médio, vai pro púlpito e avisa que salvou a humanidade de si mesma. O pior de tudo não é o cinismo. O foda é que funciona para a base dele.
Ele fechou prometendo "paz através da força". O slogan de sempre para encobrir o cheiro de concreto queimado no distrito de Velenjak. Nenhuma palavra sobre as escolas destruídas. Apenas a certeza bélica de quem lucra com o próprio caos.
O roteiro do cinismo: as 10 falas do Salão Oval
As falas não vieram com filtro. A coisa toda durou pouco mais de vinte minutos e foi um festival de absurdos disparados no púlpito. Não dá para traduzir o tom diplomático que não existe, tem que ler a crueldade mastigada em horário nobre.
Sobre os feridos no ataque e a ética de guerra, ele esvaziou qualquer peso humano. "Me pediram para ter pena daquela gente no hospital de Teerã. Pena? Eu gosto de soldados que não são explodidos em mil pedaços", soltou ele. "Eles perdem uma perna, o rosto, e a mídia diz que viraram heróis. Herói de verdade ganha a coisa toda e volta inteiro. Olhem para os comandantes iranianos agora, um bando de perdedores mutilados que não conseguiu nem ver o nosso drone chegando no telhado."
A morte de Ali Khamenei foi narrada com escárnio de quem comemora audiência. "Nós apertamos um único botão e, bum, o 'cão raivoso' virou poeira. Eles diziam que ele era intocável. Eu toquei. E toquei muito forte." Houve um silêncio esquisito na sala de imprensa. "O Irã hoje é um grande estacionamento escuro. Talvez a gente construa um hotel de luxo por lá depois que a fumaça baixar."
A disparada do barril de petróleo e o pânico dos mercados não passaram ilesos do deboche. "Estão chorando pelo preço da gasolina na Europa? Paguem. A liberdade custa muito caro e eu acabei de cobrar a fatura inteira". O bloqueio logístico também virou piada de púlpito. "Se o Estreito de Ormuz está fechado, que aprendam a nadar. A Marinha dos Estados Unidos não é Uber de petroleiro francês".
Nem o ultimato do Eixo Leste ou o direito internacional frearam a retórica. "A China ligou reclamando de inflação. Eu mandei eles irem pescar no Mar do Sul. Eles não vão fazer nada". E sobrou para Genebra. "A ONU soltou nota chamando o meu botão de crime de guerra. A ONU é um clube de golfe falido que eu parei de pagar a mensalidade há muito tempo. Eles que vão protocolar a queixa com o zelador."