Orçamento secreto: a fatura da direita no STF

Interior do Congresso Nacional brasileiro imerso em penumbra e sombras densas. Sobre uma mesa oficial de madeira escura, pastas rasgadas com o brasão da República deixam vazar maços de notas de reais manchadas de graxa e lama. Ao fundo, fora de foco, silhuetas de homens de terno e gravata cochicham. A iluminação é dramática, com feixes de luz dura cruzando a poeira suspensa no ar, evocando corrupção, segredo e decadência institucional.
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

A hipocrisia veste verde e amarelo. A mesma turma que bate no peito em nome da moralidade nos palanques, negocia propina na calada do Diário Oficial. O Supremo Tribunal Federal acaba de dar o primeiro grande bote na direita que sequestrou o Orçamento da União.

O relógio marca as horas desta manhã de 19 de março de 2026, e a conta do orçamento secreto finalmente começou a chegar.

A TABELA DO MARANHÃO

O caso mais emblemático tem nome, sobrenome e mandato. Josimar Maranhãozinho, figura carimbada do PL. O deputado federal transformou a saúde de São José de Ribamar, no Maranhão, em um balcão de negócios privado. A engenharia era brutal e primária: eu mando o dinheiro público para a sua cidade, você me devolve 25% em propina.

O PEDÁGIO DA FÉ

No mesmo barco e no mesmo partido, o Pastor Gil (PL-MA) e o ex-deputado Bosco Costa (PL-SE). A trinca conservadora exigiu a bagatela de R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo do então prefeito maranhense. A verba originária? Exatos R$ 6,67 milhões dos cofres federais que deveriam salvar vidas nos postos de saúde locais, mas que estavam condicionados a forrar os bolsos da bancada.

MARTELO BATIDO

A fase de previsão de absolvição já era. O STF bateu o martelo no último dia 17 de março. A Primeira Turma condenou Maranhãozinho a 6 anos e 5 meses de prisão. Pastor Gil pegou 5 anos e 6 meses. Bosco Costa, 5 anos cravados. Todos em regime semiaberto. Ficam inelegíveis e terão que devolver o R$ 1,6 milhão desviado. A batata assando agora está no colo da Câmara dos Deputados, que terá que decidir em plenário se cassa os mandatos ou se endossa a impunidade. Quer dizer, a gente já sabe muito bem como a Câmara opera, mas o holofote muda o jogo.

A SOMBRA DO PP

Enquanto os peixes médios do PL caem na rede, a cúpula do PP segue orbitando o escândalo. Arthur Lira, o arquiteto-mor da farra das emendas, assiste ao cerco se fechar. Na Operação Transparência da Polícia Federal, o alvo foi direto no pulmão do seu esquema: Mariângela Fialek, a "Tuca", sua ex-assessora e ex-conselheira da Codevasf.

O DUTO DA CODEVASF

Tuca despachava confortavelmente de uma sala da Presidência da Câmara. Era ela quem exercia o controle rigoroso dos desvios de emendas parlamentares, direcionando os milhões do orçamento para a Codevasf — a estatal que foi completamente loteada pelo Centrão e pela direita. Lira tenta se blindar alegando não ser o investigado direto. Não é. Ainda. Mas o duto que irrigou os redutos conservadores com dinheiro sem rastro tem as digitais do seu gabinete. A Polícia Federal segue puxando o fio.

O DEBOCHE NO SENADO

Se na Câmara o PP sua frio, no Senado o União Brasil institucionalizou o escárnio. O alvo agora atende por Davi Alcolumbre. Na maior desfaçatez republicana dos últimos tempos, o presidente do Senado assinou um ofício endereçado a... ele mesmo. O objetivo? Destravar R$ 379 milhões em emendas. Desse bolo absurdo, R$ 30 milhões foram cirurgicamente direcionados para uma obra no Amapá tocada pela construtora do seu próprio suplente, o empresário Breno Chaves Pinto. E adivinha? O aliado já estava na mira da PF por fraudes em licitações do DNIT. É o orçamento secreto operando à luz do dia, rindo da cara do contribuinte enquanto a PF fecha o cerco.

POLÍTICO / PARTIDO SITUAÇÃO / ESQUEMA
Josimar Maranhãozinho (PL-MA) Condenado (6 anos e 5 meses) | Propina de 25% na Saúde
Pastor Gil (PL-MA) Condenado (5 anos e 6 meses) | Extorsão de R$ 1,6 milhão
Bosco Costa (PL-SE) Condenado (5 anos) | Extorsão de R$ 1,6 milhão
Mariângela "Tuca" Fialek (PP) Investigada (Operação Transparência) | Controle do duto da Codevasf
Davi Alcolumbre (União-AP) Investigado | Destravamento de R$ 379 milhões para obras ligadas ao próprio suplente

Fontes: Supremo Tribunal Federal (Primeira Turma); Polícia Federal (Operação Transparência). Dados consolidados em 19/03/2026.