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Prosa com o amigo: Jorge Amado
Jorge, sempre Leal e Amado, faria cem anos. Um escritor dos tempos antigos que escrevia sobre a vida contemporânea, sobre pessoas que encontramos a cada metro quadrado percorrido ou em frente ao espelho.
Nas suas histórias, nosso Amado Jorge, escritor baiano, retrata tão bem a realidade em que o povo brasileiro e, principalmente, o baiano, vive a vida, que resolvi também escrever este texto para ele, meu leal amigo Jorge.
Caro Jorge Amado,
Estamos no ano 12 do século XXI, ano este em que você completaria cem anos de vida, mas, como não está mais presente entre os mortais, completa cem anos de História.
Ainda somos aquele povo iludido com “O País do Carnaval”. Acredita que nós, mesmo vivendo em um planeta globalizado, onde todos podem e têm acesso à informação, seja ela escrita em jornais, revistas, livros, contada boca a boca — tendenciosas ou não — conseguimos nos esquecer de todos os problemas que nos cercam, particulares ou sociais, para cair na folia durante uma semana? É, meu amigo, em alguns lugares, nem preciso dizer onde, a folia dura o mês inteiro. É muita farra, bebedeira, sexo sem proteção e filhos vindo ao mundo sem preparo algum. Isso sem contar as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), que podem levar os foliões à morte!
Um país que ainda sofre com o coronelismo, só que agora são os senhores de colarinho branco! Uns tais de deputados, senadores, prefeitos, vereadores e outras joças mais. É claro que por trás destes existem outras figuras, muitas vezes mais “ilustres”.
A vestimenta desses “senhores da corrupção” mudou um pouco também, perto do que era no século passado. Hoje estão sem a calça e o paletó de linho e o chapéu-panamá. Usam Armani, Ricardo Almeida, Yves Saint Laurent e outros estilistas finos. Não são mais senhores do “cacau”; são senhores das comunicações, do petróleo, do jogo do bicho, máfias que mandam e desmandam no Brasil. A moeda agora não é mais o cruzeiro e, tampouco, somente o real; é também outra, uma tal de “propina”, que pode ser a moeda de qualquer país rico.
O povo continua a derramar seu “suor”, a pedir proteção a “Jubiabá”, São Jorge, Deus ou às outras divindades que surgem, como boatos, dia a dia. Mas o povo carente faz-se necessário crer em algo para sobreviver e clama para que o dia termine em paz e o peixe chegue à mesa para alimentar a família, mesmo que tenha vindo de algum “mar morto”; o importante é que as bocas famintas sejam alimentadas.
Agora vou comentar sobre a evolução dos trombadinhas. Antigamente, os “Capitães de Areia” aterrorizavam não só Salvador, mas as capitais das grandes metrópoles, não é mesmo? Hoje, todas as cidades são atacadas por esses garotos. Eles estão organizados, armados e perderam completamente o amor pelo próximo. Pior: as leis os protegem. Surgiram alguns defensores intitulados Direitos Humanos que, além de dar plenos poderes a esses menores, acham que só eles são humanos, pois não assistem às famílias das vítimas.
É, meu leal e amado Jorge, as coisas não estão nada fáceis aqui embaixo, não. Nós, povo sofredor, que honramos nossas contas e pagamos impostos absurdos, estamos, a cada dia que passa, caminhando mais para “A Estrada do Mar”, pois lá, quem sabe, ficaremos livres dos absurdos que presenciamos aqui.
Às vezes, sinto como se também tivesse que fazer uma imersão, um estudo mais aprofundado, assim como fizeste em “ABC de Castro Alves”, para entender o que se passa na cabeça das pessoas que dirigem este país. Quem sabe se aparecessem pessoas do bem que tivessem interesse em realmente mudar a cara deste país e acabar com a corrupção.
Será que essas pessoas esperam que apareça “O Cavaleiro da Esperança” montado em um alazão, vestido de branco e empunhando uma espada? Não sei, mas que algo as salve e, principalmente, a humanidade das catástrofes que eles preparam para todos.
Um dia, nessas “Terras do Sem-Fim”, o povo pode rebelar-se e tornar as coisas mais difíceis para eles, mas isso poderá ser tarde demais...
Que “São Jorge de Ilhéus” e de toda a nossa amada “Bahia de Todos os Santos” proteja os homens de boa vontade que emigram do “Seara Vermelho” e de todas as terras deste país que, em busca do sucesso nas grandes cidades, deixam seus sonhos, famílias e casas.
Todos nós desejamos “O Mundo da Paz”, que não parece ser tão distante se o ser humano não vivesse “Os Subterrâneos da Liberdade”. Não haveria batalha se não houvesse o capitalismo selvagem, estou correto, Amado Jorge?
“Gabriela, Cravo e Canela” foi como um furacão na sua vida: tudo passou rápido e virou um livro. Maria de Lurdes do Carmo Maron foi a musa que inspirou você, amado Jorge, a escrever um romance tão perfeito. Mas aí veio “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” e lhe fez esquecer um pouco um amor com sabor de bolo.
Quem garante se não foi no cais que você encontrou “Os Velhos Marinheiros”? Apareceram “Os Pastores da Noite” e disseram que a vida está cheia de desilusão. É melhor procurar “O Compadre de Ogum”; assim, ficará com o corpo fechado para qualquer mal.
Veio depois disso uma história muito louca. Uma tal de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Quer dizer que a dona era casada com um boêmio que nem ligava para ela? Mas a vida cobra caro por essas farras. O belo morreu. Ela ficou santinha por um ano, até que seu corpo começou a exigir algumas coisas que a natureza humana nos força a fazer sempre.
Apareceu um farmacêutico interessante. Creio que ela foi a alguma “Tenda dos Milagres”, pois o fantasma do tal Vadinho apareceu e começou a fazer o papel do farmacêutico. Ah, se as mulheres de hoje descobrem essa tenda...
“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” tem muito a ver com o povo brasileiro. Água e óleo não se misturam. Para sobreviver, é necessário que seja feito um trabalho de adaptação.
Aquela doçura da “Tieta do Agreste” vai morrendo conforme a evolução tecnológica vem chegando. Algumas vezes, elas vestem “Farda, Fardão, Camisola de Dormir” e saem pelas ruas a esmolar poucos trocados. Como “O Milagre dos Pássaros”, os poucos trocados servem para que muitos sejam alimentados.
Vivi “O Menino de Grapiúna” muitas vezes na minha vida. Se não nascemos em berço de ouro, nascemos prontos para a batalha. Não podemos deixar que uma “Tocaia Grande” nos tire esses momentos prazerosos.
Já pensei inúmeras vezes em “O Sumiço da Santa”. Cheguei à conclusão de que reclamar não está correto; tudo está na forma como se faz a “Navegação de Cabotagem”, que é a logística da vida.
Este estudo é quase uma nova descoberta. Agora que descobri que “A Descoberta da América pelos Turcos” é real, sei que quem pode mesmo descobrir o Brasil somos nós. Por isso, nosso amado Jorge Leal Amado Faria, é “Hora da Guerra”.
* 10 de agosto de 1912, em Itabuna, Bahia
+ 6 de agosto de 2001, em Salvador
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