O Grito de Benito: Bad Bunny no Super Bowl
No intervalo do maior espetáculo esportivo do planeta, um cantor cantou. O resto virou discussão sobre política, fronteiras e o volume do sotaque alheio.
Diz a lenda que o intervalo do Super Bowl serve para três coisas: ir ao banheiro, atacar a geladeira e comentar se a pirotecnia foi exagerada. É um acordo de paz entre o esporte e o entretenimento. Mas, no Super Bowl 2026, o intervalo resolveu não colaborar com a digestão dos espectadores. Bad Bunny subiu ao palco e cometeu a audácia de falar espanhol em um volume que os vizinhos do norte não puderam ignorar.
O Sotaque que Incomoda
Benito entrou no gramado como quem entra na sala de casa, calça o chinelo e liga o rádio. O estádio, apinhado de gente que parecia entender o ritmo antes mesmo da primeira sílaba, vibrou. Não era exatamente um manifesto, nem uma tese de doutorado sobre as tensões migratórias. Era apenas presença. O tipo de presença que incomoda não pelo que diz, mas pelo simples fato de estar ali, sem pedir desculpas pela cultura latina.
A cronologia do incômodo seguiu o rigor das grandes crises modernas. Na madrugada, o mundo tentou traduzir. Pela manhã, os especialistas tentaram explicar o fenômeno Bad Bunny. À tarde, as redes sociais decidiram se ofender por esporte. E à noite, como de costume, muita gente fingiu que era apenas um rapaz com um figurino exótico cantando sobre amores impossíveis.
O que ele fez foi de uma simplicidade constrangedora: cantou na língua de Cervantes, exibiu bandeiras e lembrou que a "América" é um substantivo bem mais largo do que o mapa que ensinam nas escolas de Ohio. Disse que o amor é mais forte que o ódio — uma frase que, em tempos normais, seria um clichê de cartão de aniversário, mas que num campo de futebol americano soou como uma declaração de guerra cultural.
O mundo reagiu com a sutileza de um elefante em loja de cristais. Parte aplaudiu, parte traduziu errado por conveniência, e uma parte considerável perguntou se o show do intervalo permitia tal liberdade. Como se a música precisasse de um alvará da prefeitura para ser compreendida. Enquanto na América Latina a turma celebrava o sotaque preservado, nos Estados Unidos discutia-se a "provocação". É o velho problema: quando não se entende a letra, o culpado é sempre o volume.
Diplomacia e Entretenimento
Até a Casa Branca resolveu dar seu palpite. Soltou uma nota dessas que os diplomatas escrevem quando não querem dizer nada, afirmando que eventos esportivos servem para "unir o país". Uma frase linda, que só esquece que união não é o mesmo que todo mundo cantar a mesma nota, no mesmo tom, de preferência em inglês impecável. A polêmica internacional estava oficialmente instaurada.
Visto do sofá, o espetáculo beirava o cômico. Um evento bilionário, desenhado para ser o ápice do entretenimento inofensivo, gerando um desconforto genuíno só porque um sujeito resolveu cantar para quem sempre esteve lá, mas raramente era convidado para a foto oficial da vitória.
No fim das contas, Bad Bunny não precisou de legendas para quem já falava a língua do pertencimento. O resto foi apenas o mundo tentando decidir se aquilo era arte, política ou falta de costume com a realidade dos novos tempos.
O jogo acabou, alguém levantou a taça e os confetes foram devidamente varridos do gramado. O campeonato teve um vencedor oficial, com troféu e direito a entrevista no pódio. Já o intervalo... bem, o intervalo ainda está ecoando, e não parece que vai baixar o tom tão cedo.
Talvez a grande lição do Super Bowl 2026 não esteja no placar final, mas na descoberta de que o silêncio não é mais uma opção quando a voz que grita é a de quem cansou de ser figurante na própria história.
A Resposta de Mar-a-Lago
Enquanto o estádio ainda tentava digerir o reggaeton, o ex-presidente Donald Trump usou sua rede social para deixar claro que o "acordo de paz" do intervalo, para ele, foi quebrado com estrondo:
"O show do intervalo do Super Bowl foi absolutamente terrível, um dos piores de TODOS OS TEMPOS! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à Grandeza da América."
"Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo e a dança é repugnante. Esse 'show' é um tapa na cara do nosso país."
"Não há nada de inspirador nessa bagunça... FAÇA A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!"
Dados do Evento
| Categoria | Detalhes |
|---|---|
| Artista | Bad Bunny |
| Evento | Super Bowl 2026 |
| Impacto | Recorde de menções globais (Cultura Latina) |
Fontes: Reuters, The New York Times, Atlas das Vozes Editorial.