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O Grito de Benito: Bad Bunny no Super Bowl

Bad Bunny discursa no palco do Super Bowl diante de estádio lotado de latinos enquanto Donald Trump assiste pela TV na Casa Branca.
Por RICO RUSSO | A Engrenagem e o Mando | ATLAS DAS VOZES

No intervalo do maior espetáculo esportivo do planeta, um cantor cantou. O resto virou discussão sobre política, fronteiras e o volume do sotaque alheio.

Diz a lenda que o intervalo do Super Bowl serve para três coisas: ir ao banheiro, atacar a geladeira e comentar se a pirotecnia foi exagerada. É um acordo de paz entre o esporte e o entretenimento. Mas, no Super Bowl 2026, o intervalo resolveu não colaborar com a digestão dos espectadores. Bad Bunny subiu ao palco e cometeu a audácia de falar espanhol em um volume que os vizinhos do norte não puderam ignorar.

O Sotaque que Incomoda

Benito entrou no gramado como quem entra na sala de casa, calça o chinelo e liga o rádio. O estádio, apinhado de gente que parecia entender o ritmo antes mesmo da primeira sílaba, vibrou. Não era exatamente um manifesto, nem uma tese de doutorado sobre as tensões migratórias. Era apenas presença. O tipo de presença que incomoda não pelo que diz, mas pelo simples fato de estar ali, sem pedir desculpas pela cultura latina.

A cronologia do incômodo seguiu o rigor das grandes crises modernas. Na madrugada, o mundo tentou traduzir. Pela manhã, os especialistas tentaram explicar o fenômeno Bad Bunny. À tarde, as redes sociais decidiram se ofender por esporte. E à noite, como de costume, muita gente fingiu que era apenas um rapaz com um figurino exótico cantando sobre amores impossíveis.

O que ele fez foi de uma simplicidade constrangedora: cantou na língua de Cervantes, exibiu bandeiras e lembrou que a "América" é um substantivo bem mais largo do que o mapa que ensinam nas escolas de Ohio. Disse que o amor é mais forte que o ódio — uma frase que, em tempos normais, seria um clichê de cartão de aniversário, mas que num campo de futebol americano soou como uma declaração de guerra cultural.

O mundo reagiu com a sutileza de um elefante em loja de cristais. Parte aplaudiu, parte traduziu errado por conveniência, e uma parte considerável perguntou se o show do intervalo permitia tal liberdade. Como se a música precisasse de um alvará da prefeitura para ser compreendida. Enquanto na América Latina a turma celebrava o sotaque preservado, nos Estados Unidos discutia-se a "provocação". É o velho problema: quando não se entende a letra, o culpado é sempre o volume.

Diplomacia e Entretenimento

Até a Casa Branca resolveu dar seu palpite. Soltou uma nota dessas que os diplomatas escrevem quando não querem dizer nada, afirmando que eventos esportivos servem para "unir o país". Uma frase linda, que só esquece que união não é o mesmo que todo mundo cantar a mesma nota, no mesmo tom, de preferência em inglês impecável. A polêmica internacional estava oficialmente instaurada.

Visto do sofá, o espetáculo beirava o cômico. Um evento bilionário, desenhado para ser o ápice do entretenimento inofensivo, gerando um desconforto genuíno só porque um sujeito resolveu cantar para quem sempre esteve lá, mas raramente era convidado para a foto oficial da vitória.

No fim das contas, Bad Bunny não precisou de legendas para quem já falava a língua do pertencimento. O resto foi apenas o mundo tentando decidir se aquilo era arte, política ou falta de costume com a realidade dos novos tempos.

O jogo acabou, alguém levantou a taça e os confetes foram devidamente varridos do gramado. O campeonato teve um vencedor oficial, com troféu e direito a entrevista no pódio. Já o intervalo... bem, o intervalo ainda está ecoando, e não parece que vai baixar o tom tão cedo.

Talvez a grande lição do Super Bowl 2026 não esteja no placar final, mas na descoberta de que o silêncio não é mais uma opção quando a voz que grita é a de quem cansou de ser figurante na própria história.

A Resposta de Mar-a-Lago

Enquanto o estádio ainda tentava digerir o reggaeton, o ex-presidente Donald Trump usou sua rede social para deixar claro que o "acordo de paz" do intervalo, para ele, foi quebrado com estrondo:

"O show do intervalo do Super Bowl foi absolutamente terrível, um dos piores de TODOS OS TEMPOS! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à Grandeza da América."

"Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo e a dança é repugnante. Esse 'show' é um tapa na cara do nosso país."

"Não há nada de inspirador nessa bagunça... FAÇA A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!"

Dados do Evento

Categoria Detalhes
Artista Bad Bunny
Evento Super Bowl 2026
Impacto Recorde de menções globais (Cultura Latina)

Fontes: Reuters, The New York Times, Atlas das Vozes Editorial.