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O tédio da paz

Fotografia em estilo documental de uma revista antiga de 1969 sobre uma mesa de madeira. A capa mostra cenas de guerra no Oriente Médio, contrastando com uma metrópole moderna ao fundo.
Por Rico Russo e Lina Vasconcelos | ATLAS DAS VOZES

Uma reflexão sobre a persistência da guerra através das décadas e o desejo utópico por um mundo onde o tédio da paz vença o espetáculo do conflito.

A gente abre uma revista de 1969 e lá está ele. O sujeito de lenço na cabeça, o fogo ao fundo, a promessa de que o mundo vai acabar na próxima terça-feira ou, no máximo, após o fechamento da edição. Mudam os calibres, mudam as fronteiras, mas o figurino do ódio é de uma falta de imaginação gritante. O homem da guerra é, antes de tudo, um sujeito sem repertório.

Eu queria declarar guerra aos homens da guerra. Mas não uma guerra de trincheiras e baionetas, porque isso eles adoram. Queria uma guerra de bocejos. Uma ofensiva de pantufas. Imagina que desastre para esses generais de poltrona, esses senhores que decidem o destino de nações entre um uísque e uma ordem de ataque, se o mundo decidisse ser, subitamente, chato.

Um mundo utópico e absolutamente monótono

Onde a notícia mais urgente do dia fosse a nota sobre o crescimento de uma samambaia na varanda do vizinho. Onde os grandes estrategistas militares fossem reduzidos a técnicos de manutenção de elevadores. Nada de heróis, nada de mártires, nada de "grandes causas" que exigem o sangue alheio para serem escritas nos livros de história. Só a vida acontecendo, sem trilha sonora de suspense, sem o clarão das explosões.

A paz, para esses homens que comandam o espetáculo do pavor, deve ser um pesadelo. Eles não saberiam o que fazer com as mãos se não estivessem apontando para um mapa ou apertando um gatilho remoto. Precisam do barulho para esconder o próprio vazio. Se o mundo fosse um lugar bom, eles seriam apenas tios inconvenientes em festas de família, falando sozinhos num canto sobre táticas de invasão de quintais.

Dizem que o mundo nunca foi um lugar bom para se viver. Pode ser. Mas é que a gente se acostumou com o drama. A gente aceita a guerra como se aceita o inverno ou a inflação. É uma falha de caráter da nossa espécie: achamos a harmonia entediante. Preferimos o susto da capa de revista de 1969, que se repete em 2026, como se o tempo fosse apenas uma sucessão de incêndios que ninguém se dá ao trabalho de apagar de vez.

Eu voto pelo tédio. Pela vida pequena, sem glórias militares e sem nomes gravados em monumentos de mármore. O problema dos homens da guerra é que eles têm muita pressa de entrar para a história. E a história, coitada, já está com as prateleiras cheias de gente que achava que o mundo precisava de mais fogo.

Talvez a gente devesse experimentar a paz, só de birra. Seria o maior ato de rebeldia contra esses senhores que, há décadas, insistem em nos vender o apocalipse como se fosse a única mercadoria disponível na prateleira.

"O mundo sempre foi um lugar difícil, mas por que insistimos no mesmo figurino do ódio desde 1969? Esta é uma declaração de guerra aos homens da guerra."

Fontes: Revista Veja, Edição 34, 30 de Abril de 1969; Acervo Atlas das Vozes.