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Orelha — o caso encerrado e as perguntas que ficaram
Orelha — o caso que virou espelho de imunidade e silêncio
O encerramento do inquérito sobre a morte de Orelha não foi investigação. Foi espetáculo de fumaça para encobrir pontos que ninguém entendeu e que ninguém explicou direito. Enquanto a Polícia Civil exibiu com precisão tecnológica o rastreio de um moletom vindo da Disney, escondeu nos rodapés do documento aquilo que mais interessa à opinião pública: quem estava lá, o que disseram, e por que só um menor foi indiciado.
O fato consumado — um cão comunitário brutalmente agredido — foi tratado como episódio isolado protagonizado por um adolescente, jovem o suficiente para não responder como adulto, enquanto os demais presentes na cena foram relegados ao silêncio do inquérito. E não estamos falando de personagens genéricos: estamos falando de rapazes vistos em vídeos, relatados por testemunhas — inclusive o porteiro do condomínio — circulando naquela noite, envolvidos em reação agressiva antes mesmo da violência contra o animal ser noticiada.
O próprio relato que vazou do porteiro, agredido verbalmente por um grupo de jovens naquela mesma madrugada, é tratado pela investigação como detalhe periférico. Isso em um cenário em que a coação de testemunhas ganhou indiciamento, mas apenas como apêndice. Por quê? Quando um funcionário conta que foi xingado e pressionado, isso não deveria ser linha de frente da investigação? Por que não há detalhamento claro de quem eram esses jovens que confrontaram o trabalhador?
E aí chegamos no que mais incomoda: os outros maiores de idade que aparecem na mesma sequência de eventos. Foram citados em diálogos internos, surgiram implicados por fluxo de mensagens, foram vistos nas redes e nas proximidades — e, ainda assim, não sofreram as mesmas consequências legais que o menor indiciado.
A Polícia Civil diz que os elementos coletados só permitiam indiciar um único adolescente por coação, mas não deixou claro por que a participação dos outros suspeitos naquela sequência de agressões não foi convertida em indiciamento. Não deixou claro se não tinha provas técnicas suficientes — vídeo, áudio com imagem, rastreamentos que conectassem cada um deles ao ato — ou se simplesmente preferiu blindar os maiores de idade enquanto testava uma narrativa confortável de “caso isolado”.
E é aí que a narrativa se torna tóxica — no sentido que a opinião pública sente:
- um caso de crueldade explícita, com testemunhas ouvindo gritos e agressões;
- relatos de intimidação a quem poderia depor com mais clareza;
- cinco jovens envolvidos na mesma sequência de eventos em que o animal foi espancado;
- e, no fim, apenas um menor indiciado, como se fosse ele sozinho o executor, isolado de todo contexto social em que aconteceu.
Não é só sobre quem bateu. É sobre por que o relato de testemunhas foi tratado como secundário, por que os maiores de idade envolvidos não foram indiciados pelo menos por omissão ou associação de fatos, e por que as motivações não vieram à tona com mais transparência. Quando se mexe com bairros de alto padrão e gente que circula em cenas de viagens internacionais logo após a repercussão, é legítimo perguntar se a investigação considerou corretamente — ou considerou de fato — todas as provas e todas as pessoas envolvidas.
A sensação que fica — e que muitos compartilharam nas redes — é de que a apuração virou caixa de ressonância de versões confortáveis. Uma parte dos fatos estampada em manchetes, outra parte nunca explicada de forma clara, direta e pública. Se a polícia tivesse encontrado provas diretas que isolassem um único autor em detrimento dos outros, por que isso não foi apresentado de forma transparente? Por que a investigação não respondeu ponto a ponto os questionamentos que a própria imprensa levantou logo no início?
O encerramento sem explicação convincente sobre os demais envolvidos e sem clarificar o peso dos relatos de testemunhas é um convite à intoxicação pública — porque falta lógica no que foi tornado público. E quando a investigação não satisfaz a sociedade, a narrativa que sobra é sempre a mais dura: a de que quem tem acesso, dinheiro e conexões joga com as regras, enquanto quem não tem paga o preço de ser alvo fácil de versões confortáveis.
Até o momento, apenas um dos adolescentes envolvidos teve a internação solicitada à Vara da Infância e da Juventude — a medida mais severa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. Os demais seguem fora de qualquer regime de restrição.
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