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Arquivos Epstein: o poder que nunca foi explicado

Arquivos do caso Epstein empilhados em sala institucional simbolizam o volume de documentos e a falta de responsabilização do poder
Por Rico Russo | A Engrenagem e o Mando

Arquivos liberados pelo governo dos Estados Unidos revelam contatos, viagens, registros financeiros e omissões institucionais no caso Jeffrey Epstein, mas deixam intacto o sistema que protegeu o poder.

A liberação de cerca de 3,5 milhões de páginas relacionadas ao caso Jeffrey Epstein não produziu a revelação definitiva que parte da opinião pública aguardava. Não há uma lista organizada de crimes, nem um mapa claro de responsabilidades. O que veio à tona é mais incômodo: um excesso de registros que confirma a circulação de poder — e a ausência de consequências.

O que são os arquivos Epstein

O material divulgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos reúne documentos acumulados ao longo de diferentes investigações federais e estaduais. Estão ali e-mails, listas de chamadas telefônicas, agendas, registros de viagens, fotografias, vídeos apreendidos, relatórios internos e anotações de agentes públicos.

Os arquivos não foram organizados para contar uma história. São fragmentos administrativos, liberados em cumprimento a uma exigência legal de transparência. Parte significativa do conteúdo aparece com trechos suprimidos ou redigidos.

Quem aparece nos documentos

Nomes de figuras públicas influentes surgem de forma recorrente. Ex-presidentes, bilionários, empresários do setor financeiro e tecnológico, membros da realeza e operadores políticos aparecem associados a registros de contato, convites para eventos, encontros sociais ou deslocamentos.

A presença de um nome nos arquivos, no entanto, não equivale a acusação criminal. Os documentos raramente detalham o teor dos encontros ou a natureza das relações. O padrão é a menção sem contexto — suficiente para indicar proximidade, insuficiente para produzir responsabilização.

Viagens, ilhas e circulação internacional

Os registros confirmam o uso intenso de aeronaves privadas por Epstein, incluindo o jato que ficou conhecido como “Lolita Express”. Há menções a voos frequentes entre Nova York, Flórida, Ilhas Virgens Americanas e outros destinos internacionais.

Também aparecem referências às propriedades mantidas por Epstein, algumas já citadas em processos judiciais anteriores. O que não aparece com clareza é quem esteve em cada local, em que circunstância e com qual finalidade. As lacunas são recorrentes.

Dinheiro sem explicação

Os arquivos indicam gastos elevados com manutenção de imóveis, voos, funcionários e acordos financeiros. O dinheiro circula, mas não constrói narrativa. Não há um rastreamento completo que permita associar despesas específicas a eventos ou pessoas determinadas.

O retrato é o de um operador com acesso ilimitado a recursos e protegido por uma rede que funcionava pela proximidade social e pela inércia institucional.

Redações, omissões e recuos oficiais

Parte dos documentos foi publicada com falhas de redação. Em alguns casos, arquivos chegaram a ser retirados do ar após a divulgação inicial. Entidades que representam vítimas criticaram a forma como a liberação foi conduzida, apontando exposição indevida de dados pessoais.

Enquanto informações sensíveis de vítimas apareceram, comunicações internas de autoridades e detalhes sobre decisões institucionais permanecem protegidos.

O que os arquivos não explicam

Os documentos não esclarecem por que Epstein recebeu tratamento brando em acordos judiciais anteriores. Não detalham quem falhou, quem interveio ou quem se beneficiou dessas decisões. Tampouco encerram as dúvidas sobre sua morte em 2019, cercada por inconsistências administrativas.

O excesso de páginas não se converteu em transparência substantiva.

Um sistema exposto pelo volume

A leitura cruzada dos arquivos aponta menos para um escândalo isolado e mais para um método. Um sistema em que contatos não geram consequência, em que a ausência de prova explícita funciona como escudo permanente.

Os arquivos mostram como o poder não precisa se esconder. Basta se fragmentar, se espalhar em milhões de páginas e aguardar que o tempo faça o resto.

Fontes: Departamento de Justiça dos Estados Unidos (justice.gov); Associated Press; PBS NewsHour; CBS News; documentos judiciais federais; relatórios públicos do FBI; cobertura internacional sobre a divulgação dos Epstein Files.