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Clemente e o punk brasileiro nascido na porrada sob o Minhocão
O punk brasileiro não nasceu cantando.
Nasceu brigando!
Antes de qualquer disco, antes de qualquer manifesto, havia o Minhocão — viaduto que liga as regiões leste, central e oeste de São Paulo, mas que, sob suas marquises, também se transformava em palco de encontros inflamados entre gangues, tribos e inconformados. Debaixo dele, sob lâmpadas cansadas e concreto descascado, a cidade cuspia seus filhos mais inquietos. Ali não se discutia estética. Discutia-se espaço. E quase sempre com o corpo.
Clemente Nascimento estava lá. Não como lenda, mas como presença incômoda. O sujeito que não baixava os olhos, que não afinava a fala, que não se explicava. O punk ainda era visto como doença importada, e São Paulo reagia como reage a toda febre: tentando expulsar o corpo estranho na base do tapa.
Os encontros sob o Minhocão eram uma mistura indecente de tribos. Punks de jaqueta rasgada, roqueiros de cabelo comprido, curiosos armados de preconceito e valentões em busca de motivo. Bastava um empurrão — às vezes nem isso. Uma risada fora de hora resolvia. A porrada vinha antes da conversa.
Há quem jure que certas brigas começavam por causa de um acorde errado. Outros dizem que era por territory. A verdade é menos nobre: era raiva acumulada procurando endereço. Garrafas voavam, amplificadores caíam, gente corria. Quando a polícia aparecia, não perguntava quem começou. Terminava como sempre termina no Brasil: todo mundo culpado, ninguém ouvido.
Foi desse caldo grosso que nasceu o Inocentes. Não de um plano, mas de uma urgência. Clemente trazia na cabeça o barulho importado dos Sex Pistols, do Clash, dos Ramones — referências ouvidas em fita gasta, passadas de mão em mão, quase clandestinas — misturadas ao peso local da exclusão, do desemprego, da repressão cotidiana. O nome da banda só podia ser provocação: "inocentes", ali, era quem ainda acreditava em futuro organizado. Clemente cantava como quem presta depoimento sem advogado. Três acordes, voz direta, letra curta. Punk sem floreio. Punk sem esperança decorativa.
Os roqueiros torciam o nariz. Achavam aquilo tosco, agressivo, curto demais. Os punks respondiam como sabiam: encarando. A convivência era um armistício mal-assinado. Em algumas noites, virava aliança. Em outras, guerra aberta. O punk brasileiro se formou assim: entre um ensaio interrompido e uma fuga mal planejada.
Clemente atravessou tudo isso sem virar mito de cartaz. Preferiu o papel mais ingrato: o do sobrevivente lúcido. Quando entrou para a Plebe Rude, levou consigo o concreto, a rua, a memória da pancadaria. Não ficou mais dócil. Ficou mais perigoso — porque passou a dizer o que pensava com clareza.
Há histórias que nem o livro, "Meninos em Fúria", dá conta de conter. Ficam nos sussurros, nos desvios de versão. Dizem que Clemente saía antes que o caos virasse massacre. Outros juram que ele ficava até le fim, observando. Pouco importa. Punk não é método. É reação.
O que se sabe é que aquele Brasil urbano, nervoso, suado e mal iluminado, ganhou voz ali. Não uma voz bonita. Uma voz necessária. Clemente ajudou a gritar quando ainda não havia microfone — só eco.
Sob o Minhocão, ninguém pedia licença.
A cidade não oferecia.
O punk tomou.
E Clemente estava lá.
Não como santo.
Como fato.
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