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Por que escolhi ser professor — a arte de ensinar no Brasil
Na sala de aula, o tempo anda de pés descalços. A lousa guarda marcas de outras manhãs, o giz range a lousa como quem busca despertar o conhecimento naqueles olhos atentos — alguns cansados, outros curiosos — fazem silêncio para aprender. A fotografia que inspira esta pauta não é exceção: repete o país. Carteiras gastas, ventilação improvisada, livros que passam de mão em mão. E, à frente, alguém que escreve para semear.
“Sou professor(a)”
Escolhi ser professor porque alguém, um dia, acreditou em mim quando eu ainda tateava o mundo. Não foi um discurso; foi um gesto. Um caderno corrigido com cuidado, um conselho dito no corredor, a paciência de quem entende que aprender não obedece ao relógio.
Nos anais da educação brasileira — dissertações, relatos de prática, memórias pedagógicas — reaparece a mesma voz: a docência nasce do encontro. No Norte, professores atravessam rios para garantir presença. No Nordeste, lidam com a seca e a fome que chegam junto à criança. No Centro-Oeste, enfrentam longas distâncias. No Sudeste, a superlotação. No Sul, a diversidade de línguas e histórias. Mudam os cenários; permanece o compromisso.
Ser professor, no Brasil, é assumir uma identidade que se constrói no cotidiano. É ensinar conteúdos e, ao mesmo tempo, traduzir o mundo. É explicar a regra e ouvir a exceção. É aprender o nome de cada aluno e perceber quando o silêncio pede cuidado.
A arte de ensinar
Ensinar é uma arte miúda. Não se faz de grandes efeitos, mas de repetição paciente. O docente cuida quando organiza a sala, quando insiste na leitura, quando acolhe quem chega sem nenhuma educação formal — sem hábitos, sem palavras, sem confiança.
Há quem confunda docência com vocação abstrata. Os estudos mostram outra coisa: trata-se de trabalho intelectual, emocional e social. Exige método, formação, estudo constante. Exige também afeto — não como adorno, mas como ferramenta. A criança aprende quando se sente vista. O jovem persiste quando percebe sentido. O adulto retorna à escola quando encontra respeito.
Nas dissertações sobre prática pedagógica, a palavra que mais aparece é paciência. Não a paciência resignada, mas a ativa: a que observa, ajusta, recomeça. O professor ensina e, no intervalo, aprende a ensinar de outro jeito.
Salários injustos
Se a docência inicia pessoas à vida pública, à leitura do mundo, por que o pagamento não acompanha essa responsabilidade?
A resposta atravessa políticas descontinuadas, orçamentos comprimidos, prioridades que mudam conforme o calendário. A valorização do magistério aparece nos discursos, mas rareia na folha de pagamento. Em muitas redes, o início de carreira mal sustenta a permanência.
O resultado é conhecido: evasão de profissionais, acúmulo de jornadas, adoecimento. Exige-se excelência, entrega e inovação — e oferece-se pouco.
O que fica
Ainda assim, a sala de aula resiste. Resiste porque o professor entende que ensinar é plantar em terreno incerto. Nem toda semente brota no mesmo dia. Algumas dormem anos.
A escolha pela docência, repetida em relatos pelo país, não nasce da ingenuidade. Nasce da lucidez de quem sabe que educar muda destinos — um por um. E de quem aceita o ofício com delicadeza firme, como quem escreve na lousa sabendo que amanhã haverá outra aula, outro começo.
Educar é um ato cotidiano que atravessa desigualdades, sustenta afetos e resiste apesar da desvalorização.
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