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Três líderes, um planeta em risco
Não é preciso recorrer a teorias conspiratórias para compreender como o mundo chegou a este ponto. Basta observar quem ocupa o topo do poder em algumas das principais engrenagens políticas do planeta. Kim Jong-un, Vladimir Putin e Donald Trump não são anomalias isoladas. São produtos históricos de sistemas que premiaram a concentração de poder, a eliminação do dissenso e a naturalização da mentira como instrumento político.
Cada um governa de forma distinta, em contextos distintos. O traço comum está menos na ideologia declarada e mais no método: controle, personalização do Estado e desprezo sistemático por limites institucionais.
Kim Jong-un: o herdeiro que nunca precisou convencer ninguém
Kim Jong-un não chegou ao poder. Ele foi entregue a ele. Na Coreia do Norte, a política não se organiza por disputas, mas por herança. O país é governado, desde sua fundação, como uma dinastia disfarçada de Estado socialista. Kim Jong-un é o terceiro da linhagem. Neto do fundador, filho do ditador anterior, assumiu o comando ainda jovem, cercado por generais mais velhos, num movimento que exigiu algo fundamental: eliminar qualquer dúvida sobre sua autoridade.
Nos primeiros anos, Kim promoveu expurgos silenciosos e outros nem tanto. Executou o próprio tio, figura influente do regime, e removeu quadros militares históricos. O recado era simples: a continuidade do sistema dependia da obediência absoluta ao novo líder. Não havia espaço para transição suave.
O regime que ele conduz se sustenta em três pilares: isolamento informacional, repressão total e ameaça nuclear. A população vive sob vigilância permanente, sem acesso livre à internet, à imprensa estrangeira ou a qualquer forma de oposição organizada. O Estado define o que é verdade, o que é memória e o que é esquecimento.
O risco que Kim representa não está em um surto de loucura individual, mas na lógica do sistema que ele comanda. Um país empobrecido, armado até os dentes, governado por um líder que não precisa prestar contas a ninguém. A existência de armas nucleares, nesse contexto, não funciona como dissuasão clássica, mas como ferramenta de sobrevivência política. Cada míssil lançado em teste é também um recado interno: o regime permanece intocável.
Vladimir Putin: o homem que transformou o Estado em extensão da própria biografia
Putin não herdou o poder. Ele o reconstruiu à sua imagem. Formado no aparelho de inteligência soviético, Putin aprendeu cedo que informação é poder e que o Estado não precisa ser popular — apenas temido e eficiente. Sua ascensão ocorre no vazio deixado pelo colapso da União Soviética, quando a Rússia atravessava humilhação internacional, crise econômica e desorientação social.
Ao assumir o comando, primeiro como primeiro-ministro e depois como presidente, Putin ofereceu uma promessa simples: ordem. Em troca, pediu silêncio. Aos poucos, o pluralismo político foi sendo esvaziado. A imprensa tornou-se controlada. A oposição, tolerada apenas enquanto inofensiva. As eleições, mantidas como ritual, não como escolha real.
Putin governa a Rússia como quem administra um território sitiado. Tudo é segurança nacional. Toda crítica é ameaça externa. Toda discordância vira traição potencial. O Estado se confunde com o líder, e o líder passa a encarnar uma narrativa de grandeza ferida que precisa ser restaurada.
É nesse ponto que a política externa deixa de ser diplomacia e vira compensação psicológica de império perdido. A anexação de territórios, a intervenção em países vizinhos e a guerra prolongada não são desvios — são parte de um projeto que depende do conflito para se legitimar.
Donald Trump: o sintoma que virou governo
Trump não emergiu de um golpe nem de uma dinastia. Ele venceu eleições. E isso torna sua figura ainda mais perturbadora. Sua chegada ao poder expôs algo que muitos preferiam ignorar: democracias podem produzir líderes dispostos a corroer a própria democracia por dentro. Trump se apresenta como outsider, mas governa como alguém que acredita que o Estado deve obedecer à sua vontade pessoal.
Desde o início, sua relação com a verdade foi instrumental. Fatos deixaram de ser parâmetros e passaram a ser obstáculos. A imprensa virou inimiga. As instituições, suspeitas. A política externa, um palco de impulsos e alianças instáveis. Trump não governa com projeto de longo prazo, mas com mobilização permanente do conflito. Ele precisa de adversários — internos e externos — para manter sua base coesa.
O elo invisível
Kim Jong-un governa pelo medo. Putin governa pelo controle. Trump governa pelo conflito constante. Três métodos distintos, um resultado semelhante: a redução da política à vontade individual. O risco maior não está em cada um isoladamente, mas no ambiente que eles ajudam a criar. Um mundo onde instituições perdem força, onde a verdade se torna maleável e onde decisões que afetam milhões são tomadas em círculos cada vez menores.
A história ensina que civilizações não colapsam apenas por guerras. Antes da destruição, houve normalização: da retórica expansionista, da ideia de destino histórico, da crença de que o poder individual podia se sobrepor às instituições e às leis. Quando a política se confunde com missão pessoal, o Estado deixa de ser estrutura e passa a ser instrumento. O que se vê hoje não é a repetição literal do passado, mas a reedição de seus mecanismos. E esse processo, uma vez iniciado, raramente pede permissão para avançar.
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