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São Paulo à venda

Privatizações em São Paulo: o que Tarcísio de Freitas já vendeu e os riscos para a população
Por Rico Russo | O Nó do Estado | ATLAS DAS VOZES

Privatizações, extinções e concessões no governo Tarcísio de Freitas redesenham o papel do Estado e acendem alertas sociais

O governo de São Paulo atravessa um dos mais intensos ciclos de privatização e desestatização de sua história recente. Desde 2023, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), empresas estratégicas foram vendidas, serviços públicos concedidos e órgãos estaduais extintos. O discurso oficial aponta eficiência, investimentos e antecipação de metas. A pergunta que permanece aberta é outra: quem passa a controlar esses serviços — e onde foi parar o dinheiro arrecadado com essas operações?

A desestatização da Sabesp, a privatização da EMAE e a concessão de linhas da CPTM não alteraram apenas contratos e estruturas administrativas. Elas redesenharam o papel do Estado em áreas essenciais como água, energia e transporte. Os recursos obtidos com essas operações ingressaram no caixa do governo paulista, mas sem destinação social previamente definida. Não há, nos atos oficiais, vínculo direto entre o dinheiro arrecadado e melhorias proporcionais nos serviços vendidos ou concedidos.

Esta reportagem reúne dados factuais, decisões administrativas consolidadas e riscos apontados por órgãos de controle, sindicatos e documentos oficiais. Sem adjetivos desnecessários — apenas os fatos, o destino do patrimônio público e o que essas escolhas significam para a sociedade paulista.


O que foi privatizado e concedido

Sabesp

A desestatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo foi concluída em julho de 2024. O governo vendeu cerca de 32% das ações, perdeu o controle acionário e abriu caminho para a entrada do grupo Equatorial Energia como investidor de referência. O argumento central foi a antecipação da universalização do saneamento para 2029, com um fundo de subsídio de R$ 14,8 bilhões. Segundo a Arsesp, a tarifa residencial média passará, em 2026, para R$ 6,40/m³, enquanto no modelo estatal chegaria a R$ 7,36/m³.

EMAE

A Empresa Metropolitana de Águas e Energia foi privatizada em abril de 2024, em leilão que arrecadou cerca de R$ 1 bilhão. A EMAE administra usinas hidrelétricas, barragens e reservatórios estratégicos para o abastecimento e controle hídrico da Região Metropolitana de São Paulo.

CPTM – Linhas 11, 12 e 13

Em março de 2025, o governo concedeu à iniciativa privada a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, conhecidas como Lote Alto Tietê. O contrato prevê até R$ 14,3 bilhões em investimentos ao longo de 25 anos. Sindicatos e usuários apontam que concessão não elimina riscos imediatos: greves, falhas técnicas e redução de pessoal já marcaram outras experiências semelhantes.


Órgãos públicos extintos ou desmontados

  • Fundação Parque Zoológico de São Paulo
  • DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S/A
  • IPESP – Instituto de Pagamentos Especiais de São Paulo
  • EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (liquidada em 2025)
  • DAEE transformado em agência reguladora SP Águas

O argumento recorrente é a “modernização administrativa”. Na prática, a extinção reduz a capacidade operacional direta do Estado e amplia a dependência de contratos, concessões e fiscalização indireta.


Riscos no horizonte

  • Tarifas no longo prazo: subsídios seguram preços no início, mas pressão por dividendos tende a crescer.
  • Exclusão territorial: regiões periféricas e menos rentáveis entram por último nos investimentos.
  • Perda de controle estratégico: água, energia e transporte dependem de decisões empresariais em crises.
  • Qualidade do serviço: redução de pessoal e terceirização impactam segurança e manutenção.

Pano de fundo político

O governo paulista trabalha com mais de 30 projetos de privatização e concessão, incluindo saúde e educação, com meta de arrecadar até R$ 500 bilhões até 2026. A estratégia dialoga com Republicanos e PL, enquanto a sociedade permanece dividida.


Conclusão

O que está em curso em São Paulo não é apenas um ajuste administrativo. Trata-se de uma mudança estrutural no papel do Estado, com impactos duradouros sobre acesso, controle e justiça social. O discurso da modernização avança rápido. O debate público, nem sempre. E é justamente aí que mora o risco.


Onde foi parar o dinheiro

Uma das perguntas centrais permanece sem resposta clara: onde está o dinheiro arrecadado com as privatizações e concessões realizadas pelo governo paulista? Os recursos ingressam no caixa único do Tesouro Estadual e podem ser usados para amortizar dívida, reforçar superávit fiscal ou financiar outras despesas, sem garantia direta de retorno proporcional aos serviços privatizados.


Fontes e documentos consultados

  • Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP)
  • Documentos oficiais da EMAE
  • Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz-SP)
  • Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp)
  • Leis Orçamentárias Anuais do Estado de São Paulo (2023–2026)
  • Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP)
  • Diário Oficial do Estado – contratos de concessão e licitações