Pular para o conteúdo principal

Em alta

Desinformação através do tempo: quando a mentira muda a história

Desinformação ao longo da história representada por jornais antigos, telas de celular e símbolo de alerta.
Atlas das Vozes

A mentira sempre gostou de palco.

No cinema, descobriu cedo que bastava um boato bem ensaiado para derrubar uma carreira inteira. Nos Estados Unidos dos anos 1950, durante o macartismo, artistas foram engolidos por acusações nunca comprovadas de “atividades antiamericanas”. Dalton Trumbo, um dos roteiristas mais talentosos de Hollywood, foi colocado na lista negra e passou anos escrevendo sob pseudônimo. Ganhou dois Oscars clandestinos — por A Princesa e o Plebeu e The Brave One — sem poder subir ao palco. Charlie Chaplin, acusado de simpatias políticas e alvo de campanhas difamatórias, deixou os EUA e jamais voltou a viver ali. Filmes deixaram de ser produzidos, contratos foram rompidos, estúdios inteiros reescreveram projetos por medo de associação. A mentira não precisou provar nada; bastou circular.

Na política, a história oferece exemplos ainda mais cruéis. Em 1894, na França, o capitão Alfred Dreyfus foi acusado falsamente de espionagem. A acusação se apoiava em documentos manipulados e em um caldo de antissemitismo cuidadosamente alimentado pela imprensa. Dreyfus foi condenado, deportado para a Ilha do Diabo e passou anos preso até que a fraude fosse exposta. O dano já estava feito: famílias destruídas, um país dividido, instituições desacreditadas. Décadas depois, a Alemanha nazista aperfeiçoaria o método. Mentiras repetidas em jornais, cartazes e discursos transformaram grupos inteiros em inimigos públicos, pavimentando decisões políticas que levaram à barbárie. O problema nunca foi apenas a falsidade da informação, mas o efeito coletivo que ela produziu.

Na economia, o boato também age como fósforo em depósito de pólvora. Em 1929, rumores sobre a fragilidade de bancos americanos aceleraram corridas bancárias e aprofundaram a Grande Depressão. Pessoas sacavam dinheiro movidas por notícias imprecisas, jornais alarmistas e conversas de esquina. Em 2008, o roteiro se repetiu com nova tecnologia: informações desencontradas sobre a saúde financeira do Bear Stearns provocaram uma retirada em massa de recursos e precipitaram seu colapso. O banco até tinha problemas reais, mas foi a circulação descontrolada de versões e especulações que empurrou a instituição para o abismo em poucos dias.

A cultura popular também conhece esse mecanismo. Nos anos 1980, boatos sobre supostas mensagens subliminares em músicas de rock levaram à censura informal de bandas, boicotes e audiências públicas nos Estados Unidos. Artistas como Judas Priest foram levados aos tribunais sob acusações absurdas de incentivar o suicídio por meio de letras ocultas. Nenhuma prova se sustentou, mas o desgaste público, o custo jurídico e a demonização já haviam cumprido seu papel. A mentira não precisava vencer no tribunal; bastava ocupar o noticiário.

O que liga esses episódios não é o conteúdo da mentira, mas o rastro que ela deixa. Projetos interrompidos, reputações comprometidas, decisões políticas tomadas sob pressão emocional. A história se move assim: uma versão falsa se espalha, ganha autoridade pelo volume, e passa a orientar escolhas reais. Hoje, a engrenagem é digital, instantânea, global. Ontem, era impressa, oral, mais lenta. O problema permanece idêntico.

Há um detalhe incômodo que atravessa o tempo: quase sempre, a mentira prospera porque encontra terreno fértil. Medo, preconceito, pressa, desejo de pertencimento. A história não se repete como cópia, mas como método. O passado não é um museu; é um aviso em funcionamento.

Por isso, pesquisar a mesma notícia em mais de uma fonte não é excesso de zelo, é defesa mínima. Conferir versões, observar divergências, identificar interesses por trás de cada narrativa protege o leitor do impulso imediato de acreditar. Redes sociais informam, mas também amplificam distorções. A história mostra — com exemplos demais — que confiar cegamente em uma única versão costuma custar caro. Verificar é um gesto simples, quase silencioso. E ainda assim, segue sendo uma das poucas formas de impedir que a mentira continue escrevendo capítulos que não deveriam existir.