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O Mercosul: os Estados Unidos e a nova geopolítica pós invasão da Venezuela
Assunção / São Paulo — A geopolítica da América do Sul vive um momento raro de reconfiguração dramática. Enquanto o Mercosul avança em integração comercial com a União Europeia, um marco de décadas de negociações, a influência dos Estados Unidos na região entrou em uma nova fase — após uma intervenção militar direta no início de 2026 que resultou na invasão da Venezuela e na captura do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas.
Na manhã de 3 de janeiro de 2026, uma ampla operação militar comandada pelos Estados Unidos, identificada como Operation Absolute Resolve, incluiu ataques aéreos, incursões terrestres e a captura de autoridades venezuelanas em Caracas. Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados sob custódia dos EUA com base em acusações ligadas ao narcotráfico, segundo o governo norte-americano — uma justificativa que tem sido amplamente contestada por especialistas e líderes internacionais.
Com a derrubada do governo chavista, Delcy Rodríguez, antes vice-presidente de Maduro, foi colocada como chefe do governo com apoio de setores da oposição, em um cenário que mistura disputa política interna com imposição externa.
O impacto regional de uma ação sem precedentes
A invasão venezuelana recriou temores históricos de interferência externa na América Latina. Pesquisas recentes no Brasil indicam que 58% da população teme que uma ação similar possa ocorrer no Brasil, reflexo de um clima de instabilidade e debate sobre soberania nacional.
No plano global, a ação estadunidense gerou críticas em cadeia de governos e organizações internacionais, que consideram a operação uma violação do direito internacional e uma afronta à Carta das Nações Unidas por não contar com autorização explícita do Congresso americano nem respaldo multilateral.
O Mercosul e o acordo com a União Europeia
No mesmo período, o Mercosul — formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — avançou em um acordo histórico de livre comércio com a União Europeia, anunciado oficialmente em janeiro de 2026 após quase 25 anos de negociações. Se ratificado, o pacto criará uma das maiores áreas econômicas do planeta, conectando mais de 700 milhões de consumidores e reforçando a inserção global do bloco sul-americano.
O tratado elimina a maioria das tarifas sobre bens comercializados entre os dois blocos e pode dinamizar fluxos exportadores, especialmente de commodities agrícolas, além de atrair investimentos estrangeiros.
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, projeções de instituições como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontam ganhos adicionais substanciais para o Produto Interno Bruto ao longo da próxima década, impulsionados por setores como carnes, açúcar e etanol.
O olhar dos Estados Unidos
O pacto entre Mercosul e União Europeia foi recebido com cautela em Washington, que enxerga a maior integração sul-americana como um desafio às suas ambições de influência no hemisfério — sobretudo diante de um contexto em que o próprio governo americano concluiu uma invasão que redesenha as cartas regionais.
Analistas americanos apontam que a expansão de blocos como o Mercosul pode reduzir a dependência comercial dos EUA e da China, reforçando a aposta latino-americana em multialinhamento geopolítico.
Por outro lado, vozes internas nos Estados Unidos se mostram divididas: pesquisas recentes indicam que 72% dos cidadãos temem que o país se envolva demais na Venezuela, sinalizando receio de uma escalada prolongada de conflitos militares.
Desafios e disputas futuras
No plano econômico, o novo tratado com a União Europeia pode modernizar cadeias produtivas e atrair investimentos, mas também provoca debates sobre competitividade da indústria local diante de produtos europeus com tecnologia mais avançada.
No campo ambiental e social, críticos do acordo alertam que a expansão de exportações agrícolas pode intensificar a pressão sobre biomas frágeis no Cone Sul — especialmente o Cerrado e o Chaco — reacendendo a discussão sobre sustentabilidade.
No terreno geopolítico, a América do Sul se encontra em um ponto de inflexão: entre uma integração comercial que reforça autonomia e um cenário de tensões e intervenções que testa os limites do direito internacional e das relações entre grandes potências.
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