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O Titã de porcelana: a agonia do aço que virou soluço

Charge satírica Bolsonaro atleta vs saúde debilitada
ATLAS DAS VOZES

A vida é um palco de ironias cruéis e Nelson Rodrigues sabia: a saúde é um estado de espírito que o corpo desmente com um escarro. Ontem, o "Messias" era o titã de aço, o atleta #imbrochável que peitava a morte com o desdém de quem cospe no prato que comeu. Hoje, a carcaça range. O aço virou porcelana.

A charge não mente; ela expõe a verdade. Na tela, o Bolsonaro de 2020, aquele que ria das 700 mil covas enquanto ignorava 101 e-mails da Pfizer. "Não sou coveiro", dizia, entre o deboche de virar jacaré e a fúria contra a "vachina". Os fatos são secos, sem adjetivos: o governo ignorou ofertas de 70 milhões de doses enquanto o país sufocava em Manaus. A CPI da Pandemia não foi narrativa; foi o inventário de um descaso com selo oficial.

O cenário agora é o avesso do palanque. O ex-atleta, que jurava ter "histórico" para atropelar o vírus, desmancha-se em soluços crônicos e azias que a defesa maneja como salvo-conduto. Na Jovem Pan — essa catedral do pensamento de direita que serve fake news no café da manhã como se fossem hóstias — Michelle Bolsonaro entrega o drama. Chora. Diz que o marido está sendo "torturado", que "sangue de inocente" correrá se ele não for solto para tratar o refluxo em berço esplêndido.

É a estética da fragilidade usada por quem pregava a força bruta. A emissora, que serviu de megafone para o "tratamento precoce" e o negacionismo científico, agora embala o discurso da vítima santa. O homem que imitava o sufoco das vítimas de Covid-19 agora clama por misericórdia sob a sombra da tornozeleira e do refluxo.

Não há final feliz na tragédia brasileira. Há apenas o rosto pálido de um idoso que descobriu, entre uma crise de soluço e um processo judicial, que o tempo não perdoa nem os deuses de barro.

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