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Quando a Justiça vira tatuagem e a geopolítica vira porrete
Tem horas em que o mundo parece um grande programa policial de fim de tarde. O roteiro é quase sempre o mesmo: alguém erra, alguém se revolta e, logo depois, surge o justiceiro improvisado — aquela figura que confunde coragem com barbárie. Foi assim no episódio do adolescente tatuado à força na testa, lembram? Dois homens, indignados com o crime, decidiram corrigir o erro com outro erro — maior, mais cruel e devidamente televisionado.
Agora, troque o bairro periférico por Caracas. Troque a máquina de tatuar por tanques e drones. Chegamos, então, ao enredo da vez: Venezuela, Nicolás Maduro e a súbita paixão de parte da direita brasileira por invasões “libertadoras”.
É curioso. Os mesmos personagens que condenam “direitos humanos para bandido” agora aplaudem, sem piscar, a ideia de um país estrangeiro invadir outro — em nome da liberdade, da democracia, da civilização. Tudo em caixa alta. Tudo com convicção.
Não é preciso simpatizar com Maduro para enxergar a dimensão do problema. O presidente venezuelano governa com mão pesada, sabota instituições e mantém o país preso a um labirinto autoritário. Criticar o regime não é apenas legítimo — é necessário. Mas imaginar que a solução venha na forma de tropas cruzando fronteiras é como resolver furto de bicicleta tatuando a testa do ladrão. Parece justiça. No fundo, é brutalidade com discurso.
A invasão veste fantasia de herói. Fala em “resgatar o povo”, “restaurar a ordem”, “trazer prosperidade”. Na prática, guerra nunca chega de mãos vazias: traz fome, destruição, disputa geopolítica e lucros para quem vende armas. O povo, esse personagem anunciado como protagonista no trailer, costuma sair dos créditos sem final feliz.
Aqui no Brasil, há uma indignação seletiva. Quando o Estado prende justiceiros de bairro, grita-se contra o “excesso de garantias”. Quando uma potência militar ameaça intervir em outro país, a mesma ala bate palma e pede pipoca. A violência passa a ser aceitável quando vem acompanhada de bandeira vistosa e discurso ensaiado.
Some-se a isso a hipocrisia tropical. Em nome da liberdade, defende-se o autoritarismo bélico. Em nome da democracia, ataca-se a soberania. Em nome da justiça, passa-se o trator.
E nós, da esquerda crítica — aquela que não engole Maduro, mas também não engole tanque — ficamos no meio do tiroteio retórico. Porque, aparentemente, no debate público latino-americano, só existem duas opções: ou você é chavista, ou é entusiasta da OTAN. A realidade insiste em mostrar que é possível defender eleições livres sem defender bombardeios.
No fim das contas, o mundo não precisa de mais justiceiros — nem de bairro, nem de fronteira. Precisa de instituições que funcionem, oposição organizada, pressão internacional civilizada e, principalmente, de menos gente confusa achando que tatuar uma testa ou invadir um país seja sinônimo de moralidade.
Minha análise
O paralelo entre o caso do adolescente tatuado e a ideia de invasão da Venezuela expõe a mesma lógica: a crença na justiça punitiva como atalho para problemas complexos. Em ambos os cenários, quem age fora da lei afirma estar “corrigindo o errado”. Ao atropelar direitos e instituições, o justiceiro legitima exatamente a violência que diz combater.
No fim, a escolha real não é entre Maduro e invasão — é entre barbárie e civilidade institucional. E civilidade, como quase sempre, dá menos ibope.
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