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O Mounjaro e o que ele faz no corpo, o que promete e o que cobra depois
O Mounjaro ganhou espaço rapidamente na prática médica brasileira. Chegou como tratamento para diabetes tipo 2 e, em pouco tempo, passou a frequentar rodas muito mais amplas: consultórios estéticos, grupos de WhatsApp, vídeos de antes e depois. A promessa é conhecida — perder peso sem lutar com a fome. O que nem sempre aparece é o que acontece no corpo quando essa promessa vira rotina.
Do ponto de vista endocrinológico, o Mounjaro é uma medicação potente. Ele atua em dois sistemas hormonais ligados à saciedade e ao controle da glicose. Não é detalhe técnico. Essa ação dupla explica por que o apetite cai, o estômago demora mais a esvaziar e o cérebro passa a registrar “já chega” muito antes do habitual. Para quem viveu anos lutando contra a balança, isso soa como alívio.
A indicação original do medicamento é clara: controle do diabetes tipo 2. A perda de peso surge como consequência metabólica. O problema começa quando a consequência vira objetivo único, desconectado de doença, de histórico clínico e de acompanhamento adequado. Medicamento não muda de natureza só porque o desejo é estético.
Nem todo corpo pode usar Mounjaro. Pessoas com histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide, pancreatite prévia, mulheres grávidas ou tentando engravidar e pacientes com transtornos alimentares ativos não deveriam sequer considerar o uso. Ainda assim, a popularização atropelou o critério médico em muitos casos. O corpo paga esse tipo de atalho com juros.
Nos primeiros meses, os efeitos costumam ser claros: redução rápida do apetite, emagrecimento significativo, melhora nos níveis de glicose. Também aparecem náuseas, refluxo, constipação, sensação de estômago cheio demais. Até aí, o esperado. O que se observa com o uso contínuo é mais silencioso: perda de massa muscular quando não há acompanhamento nutricional e físico, adaptação metabólica e uma espécie de dependência funcional do medicamento para que a saciedade exista.
O corpo não esquece como funcionava antes. Ele apenas se mantém contido enquanto o estímulo químico está presente.
Por isso, interromper o uso de forma abrupta é um erro comum — e caro. O desmame precisa ser planejado, com redução progressiva da dose, reorganização alimentar e reconstrução da relação com a fome. Quando isso não acontece, o organismo reage tentando recuperar o que perdeu. Não é falta de força de vontade. É fisiologia.
Seis meses após a interrupção sem acompanhamento, muitos pacientes relatam aumento intenso do apetite, reganho parcial ou total do peso e um desgaste emocional profundo. A sensação de fracasso costuma cair no colo errado: o da pessoa. O corpo, no entanto, apenas voltou a operar sem o freio externo.
Os perigos do Mounjaro não estão apenas nos efeitos colaterais descritos em bula. Estão no uso prolongado sem indicação clara, na banalização de um fármaco potente, na ilusão de que ele substitui construção de hábito, rotina e escuta corporal. Nenhum medicamento faz isso. Nenhum.
Do ponto de vista científico, Mounjaro é ferramenta. Funciona quando há doença, critério e acompanhamento sério. Vira problema quando é tratado como solução permanente para conflitos que não são apenas hormonais.
O corpo aceita ajuda.
Mas não aceita ser enganado por muito tempo.
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