Pesquise no Atlas das Vozes
Um território de política, memória e cultura — onde neutralidade nunca foi virtude.
Em alta
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
O rugido de plástico do rei da selva
O compartilhamento de conteúdo racista por Donald Trump contra o casal Obama revela o uso de uma cartilha de desumanização que o mundo julgava esquecida desde 1945.
A notícia chega com o peso de um objeto de chumbo jogado num pântano: Donald Trump, o homem que ocupa o Salão Oval como quem ocupa uma sala de espera de cassino, compartilhou em sua rede social um vídeo onde Barack e Michelle Obama são retratados como macacos. O vídeo, uma animação de gosto duvidoso assinada por um tal @XERIAS_X, coloca o atual presidente dos Estados Unidos como o "Rei Leão" e seus opositores como a fauna subalterna da floresta.
O espanto não vem da novidade, mas da repetição. O racismo, em Trump, não é um deslize; é uma ferramenta de trabalho, manejada com a delicadeza de um trator em um jardim de tulipas. O que ele faz não é apenas um ataque pessoal; é o manejo de uma cartilha que o mundo julgava enterrada sob os escombros de Berlim em 1945.
A ESTÉTICA DA INTOLERÂNCIA
É a reedição estética de um período sombrio da década de 30, onde o primeiro passo para o horror era transformar o adversário em algo menos que humano. Antes dos muros e das cercas, vinha o desenho, a caricatura, o riso que autoriza o ódio.
Quando o barulho das redes sociais subiu de tom — e até aliados republicanos como o senador Tim Scott tiveram de admitir, entre preces, que a coisa era "o ápice do racismo" —, a Casa Branca operou sua coreografia habitual. Primeiro, a secretária de imprensa, Karoline Leavitt, chamou a indignação de "falsa", tentando vender a ideia de que era apenas um meme inofensivo inspirado em um desenho da Disney.
Depois, quando o cinismo não deu conta do recado, o vídeo sumiu. Um assessor, esse ser mitológico que serve para levar a culpa nos momentos de aperto, teria postado "por erro".
O próprio Trump, a bordo do Air Force One, encerrou a questão com sua lógica particular. Admitiu que aprovou a postagem, mas jurou que só viu o começo — a parte que falava de fraudes eleitorais, sua canção de ninar favorita.
O final, onde o casal Obama aparece sob o estigma secular da desumanização e o resgate dos métodos de propaganda do Terceiro Reich, ele não viu. Ou viu e achou que fazia parte da paisagem. Recusou-se a pedir desculpas.
Afinal, pedir perdão exige uma musculatura moral que o cargo não conferiu ao ocupante. O que resta é a imagem crua.
Não a dos macacos, que diz mais sobre quem postou do que sobre quem foi retratado, mas a de uma liderança que precisa descer ao nível do lodo para se sentir no topo da montanha.
O problema de se proclamar o Rei da Selva é que, no mundo real, a selva não perdoa a falta de grandeza. E o rugido, quando é de plástico e exala o veneno de épocas que juramos esquecer, só assusta quem ainda acredita em contos de fadas mal contados.
A sociedade global assiste atônita ao uso de pixels para espalhar um preconceito que custou milhões de vidas no século passado. Normalizar o abjeto é o primeiro passo para a repetição do erro.
Fontes: The Washington Post, CNN International, Reuters, White House Press Briefing.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos