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O tempo do vírus e o compasso da burocracia

Infográfico sobre vacinação contra dengue no Brasil
Por LINA VASCONCELOS | ATLAS DAS VOZES

Entre o atraso do Butantan, a escassez da Qdenga e o rastro de notícias falsas, o país soma recordes de mortes enquanto doses mofam nas prateleiras por falta de braços dispostos a recebê-las.

O mosquito não lê o Diário Oficial, nem respeita o tempo das assinaturas em papel timbrado. Enquanto o Estado se perde em labirintos de fluxos de caixa intermitentes, o Aedes aegypti cumpre sua biologia com uma eficiência que a gestão pública brasileira ainda tenta decifrar. O ano de 2024 deixou uma cicatriz de 5.832 mortos; 2025, embora menos letal, estendeu o luto com cerca de 1.300 vidas interrompidas sob o peso de um paradoxo cruel: a vacina mofando nos postos.

A narrativa de que a tragédia decorreu apenas de uma prateleira vazia é uma dessas meias-verdades que seduzem pelo simplismo, mas ignoram a complexidade do balcão. A vacina Qdenga, da japonesa Takeda, era o único recurso imediato em um mercado global faminto. O Ministério da Saúde adquiriu o estoque integral disponível, mas a aritmética foi insuficiente para a demografia nacional. Com doses restritas a crianças e adolescentes, o país assistiu a uma seleção compulsória onde a morte não escolhia idade, mas a logística sim.

O PESO DA DESINFORMAÇÃO

A negligência não tem um CPF único; é uma herança compartilhada, distribuída em fatias desiguais. Houve a hesitação federal em anos anteriores para garantir contratos de insumos e a inépcia em furar a barreira do desespero informativo. Enquanto o governo paulista injetava R$ 228 milhões em municípios no início de 2025, as redes sociais injetavam o veneno da dúvida. O boato de que a vacina nacional seria um "experimento mortal" — ignorando a eficácia comprovada — afastou 10% dos pais das filas.

É a ironia trágica de uma nação que erradicou a paralisia infantil e agora hesita diante de uma tela de celular que cospe ficções sobre ímãs e conspirações. Em estados como São Paulo, que liderou o ranking de óbitos em 2025, o problema mudou de face: onde havia vacina, faltava o braço interessado. A desinformação, ao que parece, tem um poder de contágio superior ao do próprio vírus.

A CIÊNCIA E O RELÓGIO

No horizonte, a vacina do Butantan, a Butantan-DV, emerge não como um milagre, mas como o resultado de uma paciência científica que o vírus não concede. Os dez anos de estudos de Fase 3 não foram um capricho burocrático, mas o preço da segurança para garantir que ninguém morresse da cura. Prometida como a solução nacional em dose única, ela enfrentou soluços de financiamento que remontam a repasses de R$ 130 milhões lá atrás.

O registro da Anvisa, carimbado finalmente em 26 de novembro de 2025, abriu caminho para que, neste janeiro de 2026, as primeiras 1,3 milhão de doses deixassem as caixas de isopor. A ciência não tem a pressa do político, mas o brasileiro já não tem mais a paciência da espera. O texto da saúde pública no Brasil é torto porque nunca foi uma linha reta entre a descoberta e a aplicação.

Para muitos, o imunizante chegou tarde demais; para outros, ele é o veneno que o boato inventou. O fato é que o Butantan agora corre contra o relógio para entregar o que prometeu há uma década. No meio desse descompasso, o cidadão continua a limpar o pratinho do vaso e a esperar, com o olhar perdido na fila, que a próxima nuvem de mosquitos não encontre sua porta aberta.

Indicador Dados Concretos
Mortes em 2024 5.832 óbitos confirmados
Eficácia Butantan-DV 89% para casos graves
Registro Anvisa 26 de novembro de 2025
Investimento SP R$ 228 milhões (2025)

Fontes: Ministério da Saúde (Painel de Arboviroses); Instituto Butantan (Retrospectiva 2025); Agência Brasil / Anvisa (Dados Técnicos); Pesquisa Takeda/Ipsos; Governo do Estado de SP.