Cidade e Rua
Asfalto
A gente pisa no chão com uma confiança que beira a insolência.
O asfalto aceita tudo, o pneu careca e o passo apressado de quem esqueceu o guarda-chuva.
A cidade é feita de encontros que não acontecem por falta de tempo.
O homem atravessa a faixa de pedestres olhando para o nada.
Carrega sacolas de plástico que contêm o jantar e um pouco de solidão.
Não é exatamente drama, é só o cansaço do fim do dia.
A rua não tem memória, mas guarda as marcas do óleo e do cuspe.
A gente passa e a calçada fica lá, imóvel, vendo o próximo bípede cometer o mesmo equívoco de direção.
Dizem que todos os caminhos levam a algum lugar.
Mas no centro da cidade, a maioria leva apenas ao próximo semáforo.
O asfalto é o que sobrou da natureza depois que a gente decidiu que a grama dava muito trabalho.
O homem caído que ninguém viu
O asfalto estava quente e o corpo ali, no meio do caminho, virou apenas um obstáculo para quem tinha pressa de chegar em lugar nenhum.
O desvio que esqueceu o café na mesa
A moto dobrou à esquerda onde o hábito mandava ir para a direita. Voltei para casa sem o pão, com frio nas canelas e uma vida a menos na bagagem.
O mundo visto de uma moldura de vidro
Lá fora a vida grita, aqui dentro o silêncio observa o vizinho que estende a roupa enquanto o tempo fecha.
De quem é a culpa?
Um corpo estendido que fede a mijo e estraga a paisagem de quem passa com pressa e com a sentença pronta na ponta da língua.
Dois urubus e um cartão de ponto
O bicho no telhado encarou o peito aberto de quem acorda com o despertador e com a culpa. O azar já estava assinado antes do café.
A gente passa, a calçada fica. Amanhã tem mais gente pisando no mesmo erro de ontem.