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“De quem é a culpa?” — Uma crônica urbana
Na calçada, um corpo estendido. Não é cena de novela, nem performance artística. É só mais um ser humano descartado, fedendo a mijo e ignorado pelo roteiro da cidade. Passam por ele os protagonistas da indignação cotidiana, cada um com sua fala ensaiada:
“Não fui eu que pus esse Ser aí.”
“Não conheço quem o pariu.”
“O problema é do governo.”
“Isso aí é droga, é falta de estudo.”
“Miserável! Dorme o dia todo e à noite sai para roubar.”
“Noia.”
“Trabalhar que é bom, não quer.”
“Eu, hein… nem chego perto dessa raça.”
“Afê… estraga minha cidade.”
“Tem que matar tudo.”
É o teatro da crueldade, encenado em plena luz do dia, com plateia indiferente e juízes sem toga. Cada frase, uma sentença. Cada olhar, uma condenação. E ninguém se dá conta de que o réu somos todos nós.
Antes de culpar e lavar as mãos, talvez valha revisitar Nietzsche, aquele alemão que entendeu a alma humana melhor que muito psicanalista de Instagram:
“Deus está morto. E fomos nós que o matamos. O que havia de mais poderoso e sagrado no mundo foi sangrado diante dos nossos olhos — quem limpará este sangue de nossas mãos?”
A pergunta que ecoa não é “quem é o culpado?”, mas “quem ainda se importa?”. Porque entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, parecendo mesmo morto, é a compaixão. E essa, ao contrário de Deus, ninguém quer ressuscitar.
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