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O dia em que a chuva devolveu meu pai
Recordação de uma manhã de chuva, revisitada anos depois, quando a exumação do meu pai reacendeu dores, afetos e silêncios guardados.
Há datas que se comportam como fantasmas: voltam, tocam o ombro da gente e solicitam que olhemos para trás. Três anos e meio antes daquele 5 de junho de 2017, no úmido 3 de novembro de 2013, meus irmãos, parentes, amigos e eu enterrávamos meu pai. A chuva descia do céu como se também chorasse — aqui a poesia e o eufemismo confortam a saudade — enquanto a outra água, a que nasce nos olhos, riscava nossos rostos. Era um dia que não finda, desses que ficam presos nos corredores da memória.
Naquele tempo, nos perguntávamos em sussurros se sua partida seria alívio ou perda; se desejar sua permanência seria amor ou egoísmo; se ele, ali sufocado pela própria respiração, ainda desejava seguir. Jamais saberíamos. Optamos, involuntariamente, pelas respostas que doíam menos.
No 5 de junho, ao seguirmos pela avenida Francisco Falconi rumo ao cemitério da Vila Alpina, passamos pela mesma rotatória onde, em 2013, meu celular tocou para comunicar, sem anestesia, que meu pai morrera. Paradoxo assinalado: a mesma rotatória que gira carros fez girar também nossas vidas. Revivemos tudo ao cruzá-la.
Na secretaria do cemitério, servidores gentis nos orientaram até a quadra onde ele repousava. Aguardamos ali, meu irmão e eu, meia hora de silêncio denso, até que surgiu o senhor Durvalino: pequeno, falante, cordial. Antes mesmo de pôr a pá na terra, disse como se nos oferecesse um cobertor quente: “O pai de vocês não está aqui. Só os ossos. Ele está no coração de vocês, ou no céu, se acreditarem.”
Durvalino narrava cada gesto como quem comenta um jogo antigo: a condição do solo, o que encontraríamos, as histórias de suas viagens, a convicção de que a morte é a única justiça — igual para todos. A chuva fina engrossou, o frio veio rápido, a tensão cavoucou mais fundo que as pás. Quando surgiu, entre a lama, um ponto claro, pensei ser madeira. Durvalino corrigiu: era a coluna cervical. Recolheu cada osso explicando onde ficava no corpo, posicionando-os sobre a própria pele como mapa anatômico improvisado. O fêmur com o pino da velha fratura no futebol, dedos, cóccix, rádio, ulna… até o crânio, que confesso ter sido a parte que eu mais temia e mais desejava ver.
Aos 46 anos, nunca havia presenciado uma exumação. Sempre temi velórios, enterros, o silêncio dos mortos e a dor dos vivos. Temo a morte — não a minha, mas a dos meus.
Ao final, Durvalino colocou todos os ossos — cerca de cinco quilos — num saco plástico cinza e espesso. Brincou, quase rindo: “Se precisarem de algo, estou por aqui.” E se despediu, deixando-nos ali, com aquele peso leve e insuportável nas mãos.
No crematório da Vila Alpina, fomos atendidos por Douglas, 38 anos, pai de um jovem de dezesseis que sonha com a informática na Etec. Ele também já fora coveiro antes de ir para os serviços administrativos. Falava com a delicadeza de quem aprendeu a lidar com a dor alheia todos os dias.
Para concluir o processo, solicitou que colocássemos o saco cinza em uma caixa plástica — igualmente cinza — com tampa. Não comparo a caixa a nada; prefiro respeitar sua função silenciosa. Após um sorriso breve, ele se despediu e saímos.
Sob a marquise, esperando a chuva diminuir, meu irmão e eu revisitamos histórias do nosso pai: sua juventude dura, os erros, os acertos, a pressa de ser adulto aos 22, já pai de três. Rimos, criticamos, relembramos. No saldo final, sobrou gratidão. Sobrou saudade. Sobrou amor.
Obrigado, Pai. Siga em paz, “Velhinho”.
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