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Parece que foi ontem

Reflexão sobre o tempo
ATLAS DAS VOZES

Entre memórias, amores e perdas, um homem encara o espelho e descobre que o tempo pinta de branco o que a vida escreve em cores.

Hoje, ao me encarar no espelho, antes de me barbear — o que nem exige tanto esforço, já que a barba insiste em ser rala — percebi trezentos e sessenta e cinco novos fios brancos espalhados pelo cabelo. Um para cada dia vivido, talvez. Juro que ontem eles não estavam lá. Ou talvez eu não tenha querido notar.

Ontem mesmo, ou o que parecia ontem, eu corria descalço pela rua B, entre pipas, bolas e risadas. O vento era uma festa, e os meninos do morro-do-Tatá eram meus rivais e aliados. O tempo, esse sujeito debochado, ainda não tinha me cobrado nada.

Minha mãe, heroína de avental e firmeza, gritava da janela: “Vai tomar banho, menino!”. E lá ia eu, correndo — não por obediência, mas por amor. Meu pai, mais rígido, não aceitava cabelo comprido. Dizia ser coisa de quem não sabia o que queria da vida. Ironia: nas fotos antigas, lá estava ele, cabeludo, feito um roqueiro da Jovem Guarda.

Um dia me apaixonei. Uma loira de olhos azuis me achou feio. “Surfista-gato? Esse aí?”, cochichou rindo com as amigas. Fingi não ouvir. Anos depois, foi ela quem pegou na minha mão na maternidade, chorando comigo ao ver nascer nossa filha — loira, também de olhos castanhos. Iguais aos do Pai. A vida tem dessas voltas que parecem roteiros mal escritos, mas são de uma poesia incontestável.

Passou o tempo. O primeiro dia de aula, a formatura, a separação. A casa que um dia foi cheia virou silêncio. As fotos, lembranças. E, ainda assim, tudo parece ter acontecido ontem.

Lembro da emoção de entrar na maior editora da América Latina, levado pelo meu irmão. Ele, cúmplice, me avisou: “Não se envolva com ninguém daqui.” Claro que não ouvi. E, de novo, uma loira de olhos azuis cruzou meu caminho. A mesma cor de abismo, o mesmo convite ao perigo.

Foram anos de amizade e cumplicidade. Uma pizza, um suco, uma madrugada de conversa. Dormimos de conchinha, sem pecado, mas com ternura. No dia seguinte, ela se foi. Assim, sem aviso. Nunca mais voltou. Nunca mais a vi. Às vezes acho que sonhei.

A vida, como as ondas que eu tentava surfar, me derrubou algumas vezes. Troquei a redação pela fotografia, apostei em mim, perdi quase tudo. Ganhei somente histórias — e, claro, esses fios brancos, que agora contam o tempo em silêncio.

Hoje sei: cada fio é um dia vivido, um amor perdido, uma lembrança guardada. Trezentos e sessenta e cinco fios novos… Um ano inteiro de vida em forma de neve.