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Saiu para comprar pão e se perdeu na estrada: um desvio entre Minas e o acaso
Uma saída banal rompe o hábito, atravessa estradas, estados e climas — e prova que o acaso também sabe conduzir.
O desvio
Saí de casa com a convicção modesta de quem vai comprar pão. Nada além disso. O café da manhã aguardava com a paciência das coisas simples, e eu escolhi a moto para garantir um trajeto curto, quase invisível ao tempo. No bolso, apenas o essencial: celular, documentos e uns poucos reais — dinheiro exato para o pão, um gole de gasolina e nenhuma extravagância. O resto era disposição.
Ao sair da garagem, a rua ofereceu duas opções: à direita, a padaria conhecida; à esquerda, o desconhecido. Sem debate interno, virei à esquerda. Foi menos uma decisão e mais um sussurro — desses que a gente não entende, mas segue.
A estrada que pede calma
A BR-459 se abriu diante de mim estreita, sinuosa, quase íntima. Daquelas estradas feitas para quem anda devagar. Como o trânsito era escasso, entreguei-me ao privilégio de olhar. O verde estava inteiro, luminoso. As casas simples exalavam uma bondade antiga; algumas deixavam escapar a fumacinha do fogão a lenha. As pessoas acenavam como quem deseja boa viagem.
O ar era outro. Insetos se atiravam contra o capacete, ao rosto, às canelas. O céu estava azul, as nuvens claras; o vento frio era quebrado pelo sol pontual.
As placas prometiam pousadas, queijos frescos, pão de queijo, café da manhã. Nada dizia para onde eu ia. E eu não sabia. Sabia apenas que seguia.
Delfim Moreira e o tempo suspenso
Após muitos quilômetros, uma placa anunciou Delfim Moreira. Já na MG-350, resolvi continuar. Ao entrar na cidade, tudo desacelerou. Pessoas caminhavam como se tivessem tempo sobrando; cães dormiam no meio da rua com a confiança de quem manda; o vento espalhava a brisa fria com cuidado.
Numa rua que parecia principal — ou talvez fosse apenas a que me escolheu — encontrei um gramado verde, duas traves improvisadas e uma molecada jogando futebol. Tinham uns seis anos e o mundo inteiro pela frente. O treinador gritava: “Toca essa bola!”, “Não precisa driblar o campo todo!”. Nada ali estava fora do lugar.
Lembrei do pão. Do dinheiro curto. Do risco de ouvir um “não aceita cartão”. Resolvi voltar.
Neblina, erro e riso
Na saída da cidade, virei à esquerda e acelerei. A estrada veio acompanhada de neblina — primeiro tímida, depois densa. O frio entrou por baixo da bermuda, atravessou a camiseta. O verde virou cinza, e as nuvens pareceram decidir morar na rodovia.
Uma placa anunciou Piquete. Outra, a divisa dos estados. Minas ficava para trás, São Paulo se aproximava.
— Rsss… estou indo errado.
Tremendo de frio, ria alto, sozinho. Nada era planejado. Ainda assim, tudo acontecia como devia.
O retorno
Lentamente, o gelo ficou para trás. Passei novamente por Delfim; o sol aqueceu a pele, arregacei as mangas e segui. Em alguns trechos, parei a moto, fotografei o que dava. Um tucano cruzou meu caminho e pousou num tronco baixo — grande demais para caber numa foto.
“Que terra linda. Quem fez tudo isso?”, pensei. Não questionei os cortes nas montanhas nem os pastos alinhados. Minha dúvida era outra. Era sobre as pedras cravadas nos cumes, as árvores altas demais para o pescoço, a variedade infinita de formas. Tudo feito sem repetição. Não existe feio na Natureza. Existe o diferente.
Em certos pontos, o único som era o do vento, do rio, dos pássaros. O mundo falava baixo.
As placas confirmaram: agora eu estava no caminho certo. Próximo de casa. Senti alegria pelo passeio improvável e uma tristeza discreta por ele acabar. Logo me consolei: essas estradas continuam ali. Basta sair para comprar pão.
Cheguei em casa às 11h30, feliz, sem os pães para o café da manhã — e solteiro.
Às vezes, o cotidiano só precisa de um pequeno erro de direçao para revelar tudo o que estava escondido.
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