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Tudo o que foi lavado em preto: uma crônica sobre o tempo e a perda
Uma reflexão sobre o peso do passado, a exaustão do afeto e a cicatriz que não fecha; o preto não é ausência, é o excesso de tudo o que fomos.
Há crônicas que dispensam o palanque do testemunho público. Elas se acomodam no silêncio de um cômodo vazio, logo após o estalido quase imperceptível de uma porta que se fecha com um zelo desnecessário. É ali, nesse vácuo de som, que a memória deixa de ser um baú de recordações para se tornar uma lente — um filtro denso por onde a luz, antes clara, agora precisa pedir licença para passar.
Nos primeiros anos da década de 1990, São Paulo ainda guardava certas demoras. Foi nesse cenário sem pressa de se traduzir que dois jovens se cruzaram. Ela, a adolescência ainda no rosto; ele, com o fôlego de quem acaba de estrear na vida adulta. Não houve o anúncio de uma epopeia, nem o presságio de uma tragédia grega. Foi o cotidiano em sua forma mais crua: um beijo numa praça, o susto de uma descoberta, uma gravidez que chegou antes das certezas.
A ARQUITETURA DA PERMANÊNCIA
O casamento, que para muitos seria o sinal de fuga, para eles foi o de permanência. Ele ficou. Ela aceitou. Ergueram as paredes de uma família antes mesmo de entenderem a arquitetura do que estavam construindo. Mas o tempo, esse mestre implacável da disparidade, cuidou de desenhar caminhos distintos. Ele expandiu-se para o horizonte, buscou a estrada e as urgências do mundo. Ela, por um processo de introspecção quase geológica, cresceu para dentro, tornando-se a guardiã da rotina.
Não se trata de um veredito moral, mas de uma constatação de movimentos. O que nasceu sob a égide do afeto transmutou-se, lentamente, em exercício de administração. O corpo, território antes destinado ao encontro, passou a ser objeto de negociação. Os silêncios, outrora confortáveis, ocuparam as lacunas de diálogos que nunca chegaram a ser aprendidos. É uma gramática perigosa: quando o afeto perde a linguagem, ele busca o poder.
Quando o desejo se torna ferramenta de troca, o conflito deixa o ambiente íntimo para se tornar estrutural, pesado, definitivo. O homem resistiu. Não por uma santidade de espírito, mas por uma questão de identidade. Naquela moldura, amar era sinônimo de suportar. Até o instante em que compreendeu — ou foi convencido pelo cansaço — que também possuía a capacidade de ferir. Não houve maldade deliberada; houve exaustão.
É aqui que a canção Black, do Pearl Jam, encontra o seu eco mais doloroso. A música não trata do encerramento de um ciclo amoroso, mas da mutação de sua natureza. A traição, nesse palco, não é a causa da ruína, mas a sua assinatura final. Ela apenas valida o desvio de um eixo que já não sustentava o peso do mundo. O centro se perde. A vida deixa de orbitar em torno de uma pessoa e passa a girar em torno de uma fuga.
O COLECIONADOR DE VERSÕES
O que veio depois foi o movimento. Outras mulheres, outros altares, novos nomes para as mesmas indagações que o tempo não soube responder. A pergunta era sempre a mesma, embora muda: é neste novo porto que a ferida, enfim, se fecha? A resposta é o silêncio. O homem aprendeu a etiqueta do funcionamento social. Sorri, circula, acumula os louros de quem parece ter vencido a batalha da vida.
Para os observadores casuais, ele é um herói de mil histórias. Para si mesmo, ele é apenas o colecionador de versões diferentes de um mesmo erro de percurso. Quando um conhecido o elogia com um entusiasmado “você é foda”, ele corrige com o rigor de um revisor. Não é falsa modéstia. É precisão. Ter percorrido muitos quilômetros não significa ter chegado a lugar algum; às vezes, significa apenas que se carregou a ausência por uma distância maior.
O homem olha para as várias uniões que o tempo empilhou e não enxerga o troféu que os outros aplaudem. Onde o colega vê a "sensação" da juventude e a mística de quem viveu muito, ele identifica apenas o atestado de uma falha. Para ele, o verdadeiro "foda" teria sido o sucesso de ter permanecido na primeira morada, naquela que a menina de pele de nuvem e olhos de céu desafiou. Há uma melancolia profunda em ser mestre na arte de recomeçar quando tudo o que se queria era não ter precisado partir.
O que dói hoje, com o distanciamento que a maturidade impõe, não é a falta daquela mulher do início. Os mundos tornaram-se irreconciliáveis, estrangeiros um ao outro. O que sangra é a nostalgia daquela versão de si mesmo que, um dia, acreditou piamente que o amor era o bastante. Aquele homem que ainda não havia aprendido a trocar afeto por sobrevivência.
A pergunta que encerra a canção — sobre ser uma estrela no céu de outro alguém — não busca a pessoa que partiu. É uma interpelação ao próprio tempo. Há histórias que não buscam o perdão ou a reconciliação, pois o tecido já se rompeu de forma definitiva. Elas buscam apenas o reconhecimento. A coragem de admitir, com uma honestidade que só a maturidade permite, que certas cicatrizes permanecem abertas. E que o preto, longe de ser o vazio, é apenas o excesso de tudo o que fomos.
Fontes: Relatos colhidos para o Atlas das Vozes; Letra de "Black" (Pearl Jam, 1991).
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