Pular para o conteúdo principal

Em alta

O cão Orelha: o caso que incendiou protestos, expôs falhas e move o país por justiça

O cão comunitário Orelha, símbolo do caso de maus-tratos na Praia Brava, em Florianópolis
Por Lina Vasconcelos | ATLAS DAS VOZES

Praia Brava (Florianópolis) — A morte brutal do cão comunitário Orelha virou um dos principais capítulos sobre maus-tratos a animais no Brasil nos últimos anos — e o inquérito policial em Santa Catarina segue em ritmo intenso, com descobertas, reviravoltas e mobilização social em várias capitais.

4 de janeiro de 2026 — o ataque

Orelha foi encontrado gravemente ferido na madrugada de 4 de janeiro de 2026, em uma área próxima a condomínios de alto padrão no Norte de Florianópolis. Conhecido por circular entre bares, ruas e quiosques da Praia Brava, o cão era alimentado por comerciantes e moradores. Não era um animal invisível. Era conhecido. E por isso mesmo, sua morte não passou despercebida.

Levado a uma clínica veterinária, Orelha apresentava fraturas e traumatismo craniano. O quadro era irreversível. No dia seguinte, 5 de janeiro, a equipe médica optou pela eutanásia para cessar o sofrimento do cãozinho. A notícia se espalhou rapidamente entre moradores e trabalhadores da região.

Investigação policial em andamento

A Polícia Civil de Santa Catarina instaurou inquérito ainda nos primeiros dias de janeiro. Câmeras de segurança, depoimentos e relatos de vigilantes indicaram que a agressão não foi um ato isolado. O que começou como a apuração de um ataque contra um animal passou a desenhar um padrão de comportamento violento envolvendo um grupo que circulava pela área naquela madrugada.

Durante a investigação, surgiram informações sobre outros episódios de agressividade e perturbação envolvendo o mesmo grupo. Uma suposta tentativa de afogamento de outro cão comunitário chegou a ser investigada, mas acabou descartada como crime comprovado. Ainda assim, os relatos reforçaram a percepção de recorrência.

No dia 26 de janeiro, a polícia cumpriu três mandados de busca e apreensão. Celulares, roupas e dispositivos eletrônicos foram recolhidos para análise técnica. O foco era reconstruir a dinâmica da noite do crime, identificar comunicações e cruzar horários.

Poucos dias depois, um novo elemento alterou o curso da apuração. Um porteiro da região decidiu divulgar áudios em que relata agressões cometidas em grupo por vigilantes e o clima de intimidação que se instaurou após a morte de Orelha. O material passou a circular publicamente e foi incorporado à análise da Polícia Civil.

Paralelamente, a investigação avançou sobre a conduta de adultos ligados ao caso. Pais e responsáveis legais de adolescentes investigados passaram a ser apurados por possível coação de testemunhas. Segundo relatos, um vigilante teria sido pressionado após colaborar com a polícia. O conteúdo dessa intimidação é analisado como possível tentativa de obstrução do trabalho investigativo.

Adolescentes no exterior, retornos e depoimentos

Dois adolescentes dos quatro investigados no caso estavam em viagem aos Estados Unidos, previamente agendada. Eles retornaram ao Brasil no dia 30 de janeiro e foram abordados ainda no aeroporto. A polícia afirma que o retorno marcou uma nova fase do inquérito, com a ampliação das oitivas e da análise técnica do material apreendido.

Outro adolescente inicialmente considerado suspeito foi descartado da lista de investigados após a polícia verificar que não aparece em imagens capturadas por câmeras de segurança e que não estava presente no local do crime.

O caso ultrapassou as fronteiras locais. Um deputado federal protocolou pedido de federalização da investigação, alegando a gravidade dos fatos, a repercussão nacional e a necessidade de garantir imparcialidade. A solicitação ainda será analisada, mas indica que o caso passou a ser tratado como algo maior do que um crime isolado.

Repercussão nacional e protestos

Além do caso principal, as investigações já apuraram que, no início do mês, o mesmo grupo de adolescentes teria envolvimento em outros atos de perturbação na Praia Brava, como depredação de patrimônio, furto de bebidas e perturbação da ordem — embora a Polícia Civil esteja ainda em fase de individualização desses delitos.

A polícia também chegou a investigar a tentativa de afogamento de outro cachorro conhecido como Caramelo, mas esse ponto foi posteriormente descartado como crime comprovado.

Consequências legais previstas

Como os investigados são menores de idade, o caso está sendo tratado conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o que limita a aplicação de pena criminal tradicional. Medidas socioeducativas podem ser aplicadas, como advertência, prestação de serviços comunitários ou internação em estabelecimentos específicos, conforme entendimento jurídico.

Pontos de atenção nas próximas semanas

  • Continuação da análise de celulares e dispositivos apreendidos.
  • Oitiva de testemunhas e moradores da Praia Brava em busca de imagens e relatos.
  • Avaliação pela Delegacia de Proteção Animal e Conselho Tutelar sobre medidas adicionais.
  • Mobilizações sociais e possíveis desdobramentos legislativos no Congresso de Santa Catarina.
Data Fato
04/01/2026 Orelha é encontrado gravemente ferido na Praia Brava
05/01/2026 Cão é submetido à eutanásia após agravamento do quadro
26/01/2026 Cumprimento de mandados e apreensão de dispositivos
30/01/2026 Retorno ao Brasil de adolescentes investigados

Fontes: Polícia Civil de Santa Catarina; Ministério Público de Santa Catarina; CNN Brasil; SBT News; relatos públicos de testemunhas; registros do inquérito.