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O fim da linha para Orelha: a morte brutal do mascote da Praia Brava

ATLAS DAS VOZES

Orelha, o cão comunitário de 10 anos foi torturado em uma das áreas mais nobres de Florianópolis; quatro adolescentes da elite local são os principais suspeitos do crime que chocou o Estado.

Orelha não tinha dono, mas tinha uma rotina regrada. Durante dez anos, o vira-lata de pelagem escura foi parte fixa da Praia Brava, no Norte de Florianópolis. Dormia em casinhas de madeira improvisadas pela vizinhança, comia ração comprada em rateio, atravessava a rua como se conhecesse o tempo do semáforo. E talvez conhecesse. Era um cãozinho que não latia para a pressa — deitava, mostrava a barriga, confiava.

Essa confiança acabou no dia 15 de janeiro.

O dog foi encontrado agonizando em uma área de mata por um morador que costumava alimentá-lo. O corpo não escondia nada. Estava quebrado. Machucado por dentro e por fora. Quem acompanhou o resgate usou uma palavra simples e difícil de ouvir: massacrado. Na clínica veterinária, os exames confirmaram múltiplos traumas, fraturas e lesões internas profundas. Espancamento. Pauladas. Não havia caminho de volta. A eutanásia encerrou a dor que alguém começou.

O cerco aos envolvidos

A Delegacia de Proteção Animal chegou rápido aos nomes. Quatro adolescentes, moradores da própria Praia Brava, área conhecida pelo metro quadrado caro e pela sensação de ilha protegida. Na segunda-feira, dia 26, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao grupo. Celulares e computadores foram recolhidos para perícia.

Dois dos menores já prestaram depoimento. Os outros dois viajaram para os Estados Unidos. A defesa afirma que a viagem estava programada. A investigação segue. E não se limita aos adolescentes. Há apuração sobre coação no curso do processo. Denúncias indicam que um policial civil, pai de um dos envolvidos, teria ameaçado testemunhas com uma arma de fogo. Durante as buscas, os agentes procuravam essa arma. Encontraram drogas. Nada disso ainda foi julgado. Tudo isso já pesa.

Vida comum, morte anunciada

Orelha circulava entre as pessoas e os cachorros do bairro como quem já era um veterano conhecedor do território. Convivia com Cristal, cadela de uma empresária local. Recebia carinho de moradores e turistas. A Associação Praia Brava (APBrava) diz que ele era um dog querido. Um cachorro que quase todos conheciam, brincavam e respeitavam — com exceção dos pseudo-adolescentes.

Os relatos do inquérito trouxeram mais sombra. Antes do ataque que matou Orelha, o mesmo grupo teria tentado afogar outro cachorro no mar. Esse escapou. Orelha não. Foi levado para o mato. E lá ficou.

As famílias negam envolvimento. Alegam ausência dos jovens em vídeos que circulam nas redes. O Ministério Público acompanha o caso. Por serem menores, os suspeitos respondem conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Enquanto isso, a Praia Brava mudou de som. As casinhas onde Orelha dormia estão vazias. Cartazes ocupam muros e postes. O bairro nobre, acostumado ao silêncio protegido, agora convive com pedidos de justiça que atravessaram Santa Catarina e chegaram ao país inteiro.

Orelha não tinha sobrenome. Mas deixou endereço — na memória de quem entendeu, tarde demais, que convivência não é paisagem. É escolha diária.

Fontes:

  • G1 Santa Catarina: Investigação da Polícia Civil e detalhes da eutanásia.
  • NSC Total: Depoimentos de moradores e protetores da Praia Brava.
  • Delegacia de Proteção Animal de Florianópolis: Relatório de busca e apreensão.
  • Ministério Público de Santa Catarina (MPSC