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O Espetáculo do Ontem: A Luz que nos engana

O céu e o tempo
ATLAS DAS VOZES

Meus amigos, olhem para cima. Esqueçam o teto da sala ou a tela do celular. Encarem o universo. A ciência revela uma verdade incômoda: o céu é uma mentira visual. No momento em que você foca os olhos em uma estrela, está folheando um álbum de fotografias velhas. O que você vê não está lá. Pelo menos, não agora.

Luz Fóssil

Se o Sol apagasse neste exato segundo o mundo continuaria banhado por um calor fantasma por oito minutos. Estaríamos celebrando a luz de uma estrela extinta. Se Marte sumisse do mapa, levaríamos doze minutos para notar o vácuo. Uma estrela a quatro anos-luz que colapsasse hoje só entregaria a notícia aos nossos olhos em 2030.
O que enxergamos é, por definição, o passado. O céu é um arquivo de sombras. É o ponto onde a razão esbarra no limite do que chamamos de presente.

Planejamento Cego

Se os olhos processam apenas o "já foi", a pressa em planejar o "será" é um contrassenso. Projetamos o futuro com ferramentas que só leem o ontem. O presente — o instante fugaz que os gregos chamavam de Kairós — escapa entre os dedos. Estamos sempre ocupados reagindo ao que já aconteceu.
Nossa vida sofre desse atraso. Projetamos o amanhã baseados em quem fomos há dez anos. Tentamos enxergar o que vem pela frente através de um telescópio viciado em memórias.

Futuro Palpável

A lição que as estrelas nos dão é de uma humildade profunda. Aceitar que o que olhamos é passado não deve ser motivo de melancolia, mas de lucidez. Se a luz que nos toca agora é antiga, que o nosso gesto de hoje seja a semente de uma luz que alguém, lá na frente, verá com esperança.
Que possamos, entre um café e um suspiro, alinhar o que vemos com o que sentimos. Nem tudo que brilha está vivo, mas o que fazemos agora é o único futuro que realmente podemos tocar.