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O Código Delas

ATLAS DAS VOZES

Amigo, encoste o copo e preste atenção.

O barulho do gelo no copo às vezes distrai mais que a conversa na mesa ao lado. Tem homem que ainda acha que entender mulher é como resolver uma equação de segundo grau, mas a conta não fecha porque a gente insiste em usar a lógica errada. O silêncio delas, por exemplo. Quando ela para de falar e fica olhando para o nada, não é falta de assunto. É um tipo de ruído que a gente não capta. Se ela diz que “não é nada”, o sujeito médio relaxa. Erro comum. Esse “nada” tem uma espessura que dá para cortar com faca, mas a gente prefere fingir que entendeu a paz. Às vezes, continuar perguntando é menos sobre resposta e mais sobre insistir.

Ontem vi um cara tentando explicar para a namorada como consertar o motor do carro enquanto ela reclamava do cansaço. Ele falava de biela, ela falava de exaustão. Ele queria ser o herói da oficina, mas ela só precisava que ele concordasse que o mundo pesa mais em alguns dias. O homem tem esse impulso estranho de consertar o que não quebrou, ou o que não pede chave de fenda. Se ela pergunta se está bonita, não responda com uma análise técnica sobre o caimento do tecido. Só reaja. Um susto positivo, um olhar de quem esqueceu o que ia dizer. Funciona. Mesmo quando parece meio bobo, especialmente quando parece.

Tem a história da depilação também. Ela avisa que foi ao salão e o cara responde “legal”. Um “legal” seco, sem vida. Ele não percebe que aquilo é uma senha, um convite que pede resposta à altura. O ritual de se cuidar é para ela, claro, mas o anúncio é para ele. Se uma mulher bonita passa por vocês na rua, ela vai ver antes de você. Não tente esconder o óbvio, mas não seja o idiota que tece elogios técnicos. No máximo, diga que é bonitinha e mude de assunto para o preço da gasolina. O ciúme aparece onde não deveria e some quando a gente acha que ele viria.

Pagar a conta no restaurante ainda carrega um peso estranho. Mesmo com tanta conversa sobre igualdade, o gesto de abrir a carteira diz alguma coisa sobre estar ali, presente. Não é sobre o dinheiro. É sobre não deixar o outro na mão. No fim das contas, a bagunça que a gente deixa pela casa — a meia no sofá, os pratos na pia, a toalha molhada em cima da cama — irrita ela profundamente. Mas, se você demora a chegar, é justamente desse caos que ela sente falta. A casa fica silenciosa demais sem o barulho da nossa desordem. É uma contradição que ninguém explica direito.

E nem precisa!