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Eu uso a Inteligência Artificial
Eu uso a Inteligência Artificial!
Entre a ferramenta e o constrangimento, sobra uma escolha de método — e de honestidade.
Dizer isso em voz alta ainda causa um certo silêncio.
Não é um silêncio hostil. É aquele breve constrangimento coletivo, quase educado, que aparece quando alguém toca num assunto que todo mundo conhece — mas prefere não comentar.
A Inteligência Artificial já está ali, aberta em outra aba, rodando no celular, ajudando a organizar ideias, revisar um parágrafo, cortar caminho. Ainda assim, assumir o uso parece excessivo. Desnecessário. Quase impróprio.
Curioso.
Porque ninguém mais confessa que usa corretor ortográfico. Nem planilha. Nem calculadora. A ferramenta passa, o incômodo fica.
Há um medo difuso em jogo. Não declarado. Não aparece em reunião, não vira pauta oficial, mas orienta comportamentos. Um receio de parecer menos capaz. Menos autoral. Menos sério. Ou pior: substituível.
Esse medo não nasceu com a IA. Ele já estava ali, bem antes, catalogado pela psicologia como ansiedade social — aquela tensão persistente diante da possibilidade de avaliação negativa. A tecnologia só deu um novo rosto ao velho receio de ser julgado. Hoje, o julgamento é rápido, público e permanente. Cabe numa tela. Escala em minutos.
Nas redes, então, a coisa ganha outro peso. Um comentário atravessado vira rótulo. Um uso fora do script vira argumento contra você. Não é paranoia completa. É observação prática de quem já viu o tribunal informal funcionar.
Por isso, muita gente usa IA em silêncio. Usa e não diz. Usa e explica demais o resultado, como se precisasse justificar cada linha. Usa e faz questão de parecer exausto, para não levantar suspeitas.
Não se trata de preguiça nem de genialidade. É método. É escolha operacional. A Inteligência Artificial não escreve sozinha. Não decide pauta. Não define posição. Ela não tem pele em jogo. Quem tem é quem usa. Quem responde. Quem assina.
O problema começa quando o debate sai da prática e entra na moral. Quando usar uma ferramenta vira índice de caráter. Quando o processo precisa ser ocultado para preservar uma ideia romântica de pureza intelectual que nunca existiu de fato. Porque, sejamos honestos: o trabalho intelectual sempre foi mediado por instrumentos. O que muda agora é a velocidade — e a visibilidade do medo.
Há quem finja neutralidade. Há quem finja resistência. Há quem critique em público e utilize em privado. Não por incoerência consciente, mas por adaptação. O mundo do trabalho não espera consenso ético para seguir funcionando.
Assumir o uso da IA não resolve tudo. Mas esclarece algo importante: onde termina a ferramenta e onde começa a decisão humana.
Não é um gesto de provocação. É uma escolha de método.
Mostrar o processo não empobrece o resultado. Ao contrário, expõe responsabilidade. Quem se incomoda com isso talvez não esteja defendendo qualidade, mas um certo conforto antigo — aquele em que as engrenagens ficavam escondidas.
Quem não quiser esse pacto, não fica.
Quem ficar, fica de verdade.
E isso já diz bastante sobre o tipo de leitura — e de mundo — que interessa sustentar aqui.
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