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Um território de política, memória e cultura — onde neutralidade nunca foi virtude.
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“A Papuda lhe espera. Boa estadia lá, valeu! Um forte abraço! hahahahaha”
Havia em Bozolândia um capitão de risada fácil e prestígio curto. Falava alto, gesticulava muito e, quando percebia que a plateia bocejava, recorria ao atalho mais antigo do picadeiro: a bravata. Não tinha carisma. Tinha eco. E confundia eco com aplauso.
Nos anos de farda, ainda verde de vocabulário e pobre de ideias, decidiu que a melhor maneira de ser ouvido era assustar. Em entrevistas dadas por ele mesmo — depois negadas por ele mesmo, com a mesma convicção — anunciou planos de explosões em banheiros de quartel, academias militares e, num delírio hidráulico, numa adutora que abastecia a capital. Desenhou croquis à mão, explicou o funcionamento de uma bomba-relógio e, uma semana depois, chamou tudo de mal-entendido. Em Bozolândia, chamaram de ensaio. O capitão achou graça.
A carreira seguiu. Saiu da farda, entrou na política e levou consigo o mesmo manual: provocar, negar, rir. O país, maior que o ego do personagem, virou cenário de improviso. Quando veio a pandemia, ele trocou o silêncio responsável pelo escárnio ruidoso. Enquanto hospitais enchiam, distribuía frases como quem lança confete em enterro. Vacinas viraram piada. Mortes, estatística inconveniente. A cada coletiva, um tropeço; a cada tropeço, um riso nervoso. O capitão trapalhão acreditava que ironia cura.
No roteiro seguinte, apareceu a promessa de moralizar o Estado. Falou em faxina, vassoura, ordem. Na prática, puxou a mangueira para molhar aliados e secar investigações. Na Operação Lava-Fumaça, versão bozolândica da transparência, o capitão aprendeu rápido a arte do “manda e desmanda”: troca chefias, empurra inquéritos, grita independência enquanto segura o controle remoto. A Polícia Federal virou palco; a plateia, figurante.
A língua, sempre mais veloz que o juízo, voltou a tropeçar. Em um acesso de escárnio dirigido ao presidente eleito de um país vizinho da própria biografia, soltou a frase que viraria bordão de retorno: “A Papuda lhe espera. Boa estadia lá, valeu! Um forte abraço! hahahahaha”. Riu sozinho. O país anotou.
O tempo, esse editor implacável, fez o corte seco. As bravatas envelheceram mal. Os croquis viraram prova de um método. As piadas, registro de uma postura. Bozolândia cansou do humor que machuca e da coragem que ameaça. O capitão, agora político, descobriu que o riso não apaga rastros.
No último ato, não houve explosão, nem croqui, nem entrevista desmentida. Houve silêncio de corredor, passo contido, olhar sem plateia. O capitão trapalhão atravessou o portão de concreto como quem entra no próprio espelho. A Papuda lhe espera. Boa estadia. O abraço ficou para depois.
Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou instituições reais não é coincidência.
É método.
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