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O Tempo - versão 2026
Houve uma fase da vida em que um relógio de parede morava na minha cozinha. Ele não dizia nada, mas falava o tempo todo. O tic-tac atravessava a madrugada, cortava o silêncio, lembrava que as horas existiam. Naquele período, o tempo parecia caminhar. Lento às vezes, tropeçando noutras. Mas era possível percebê-lo. Quase tocar.
Eu sabia a hora em que o dia terminava. Sabia quando a chave do carro caía na mesa. Sabia até quando o galo rasgava a noite com o canto insistente. As horas tinham corpo. Tinham presença.
Hoje, não.
O relógio se foi e a parede ficou quieta. Eu também. Já não vigio os minutos. Vejo a hora só quando o trabalho me chama, como quem confere o pulso apenas para ter certeza de que ainda há batimento. O resto… acontece sem testemunha.
E, silenciosamente, o tempo ganhou asas.
Ele não anda mais. Voa. Desliza por cima dos dias, quase invisível. Quando percebo, a tarde virou noite. Quando sinto, o mês já passou. E reconheço, com certo espanto: faz tempo que não faço tantas coisas boas como antes. Não por falta de vontade — mas porque o tempo, agora, chega antes de mim.
Antes, era o som do relógio que me tirava o sono.
Agora, é o vazio dele.
E, com alguma relutância, aceitei: o tempo não mudou. Eu é que mudei. Aquele que contava minutos perdeu o hábito. Agora, apenas tenta não ser arrastado por eles.
Não sinto que o tempo passa.
Sinto que ele atravessa. E me atravessa junto.
Ainda há algo em mim que não descansa. Não sei o que é. Só sei que insiste. E, nisso, a vida continua — mesmo quando fico para trás.
Sigo assim: sem relógio, sem alarde, tentando aprender a existir dentro desse voo apressado.
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