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Insanidade e um pouco de saudade

O peso do tempo e do afeto
ATLAS DAS VOZES

Misturo a insanidade atual com a memória de um futuro que não se cumpriu. Há o desejo, a saudade, essa dor que é mais hábito do que ferida. Aqueles olhos coloridos surgem no escuro, como um móvel fora do lugar. Tenho a sensação persistente de que parti antes da hora. Aquele choro aperta o peito. Aquele dia. O sol não se mexeu mais, a alma estacionada no susto. Foi cruel, sem querer.

Fui cruel comigo como quem esquece a chave dentro de casa.

Faltou preparo para o peso da convivência. Eu queria dividir a respiração e o silêncio que incomoda. Queria o "juntos" como se constrói um muro: tijolo sobre tijolo. Hoje, confesso, tenho medo das minhas inconstruções. Tenho medo das reações que não domino e da falta de chão. Ou melhor: do vazio, essa coisa concreta que ocupa espaço demais na sala.
Quero amar, se é que o amor ainda é possível.

Quero o espanto de quem redescobre o mundo, a sensação de que o corpo não obedece mais ao juízo.

Tudo de novo?

Sim. Desistir é um cansaço que não cura. Decidi que não vou atirar a corda, embora o nó esteja feito.

Acorda.
Relaxa.
Acha?
Chá.
Respira.
Pensa.
Repensa.

Exijo — e que o outro suporte a exigência.
Entrego — e que a entrega se perca no caminho.
Amo.
Quero a intensidade do café frio e a verdade que não precisa de discurso. Fidelidade sem as amarras do contrato. Gostosura de conversa longa e comida no fogão. Barulho de vida dentro de casa, beijo molhado que mancha a camisa. Risada fora de hora, estrada que não promete chegar em lugar nenhum. Cumplicidade é coisa que cabe no bolso, no cotidiano.

Hoje, o amor é uma ausência que me habita.

Desabafo.
Escrevo.
Perco o sono.
Durmo.
Acordo.

De novo?

De novo.