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Diante de Deus, do medo e dos dias em que a fé cochila
Há dias em que acredito em Deus como um espírito onipotente — desses que tudo veem, tudo sabem, tudo suportam. E nesses dias eu o chamo, sem cerimônia, de Deus mesmo.
Em outros, a fé muda de roupa. Deus vira energia cósmica, dessas que não falam, não julgam, apenas circulam. Vibra no ar, passa pelo corpo, escapa por entre os dedos. Ainda assim, Deus.
Há dias em que é a força da Natureza que me sustenta. O vento, o mar, a árvore que insiste em nascer no meio do concreto. E, veja só, também a isso eu chamo Deus — porque falta nome melhor quando a vida se impõe sem pedir licença.
Em certos dias, aproximo-me do espiritismo. Gosto da ideia de continuidade, de conversa entre planos, de um world que não termina quando o corpo se cansa. Dentro dele, naturalmente, mora Deus. Ou mora a tentativa humana de explicá-lo.
Há dias, porém, em que tento acreditar no ser humano. Confesso: nesses, Deus quase sempre falta. Procuro, reviro, mas encontro mais medo do que divindade. Mais ruído do que silêncio. Mais pressa do que cuidado.
E há dias — os mais difíceis — em que duvido até da minha própria existência. Tudo parece frágil, instável, provisório. Ainda assim, persiste a ideia de um Deus todo-poderoso em algum lugar, talvez sentado num canto qualquer, observando essa nossa dança desengonçada entre o pânico e a esperança.
No fundo, sou só mais um homem em busca de esclarecimento para as próprias dúvidas. Um sujeito comum, desses que atravessam a vida com perguntas no bolso e respostas provisórias no coração.
Enquanto isso, sigo tentando acreditar em um Criador. Não porque eu tenha certeza, mas porque a fé, às vezes, é só isso: um gesto de sobrevivência.
E gosto de imaginar — mesmo nos dias mais sombrios — que Ele olha por mim.
E, quem sabe, por nós.
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