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Coincidência? O destino que une assalto, mortes e Marielle

Fatos e coincidências
Por Lina Vasconcelos | O Nó do Estado | ATLAS DAS VOZES

4 de julho de 1995, Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro. Jorge Luís dos Santos assalta Jair Messias Bolsonaro. Rouba sua moto, uma Honda XLX 350, e a pistola Glock calibre 380. Preso na Bahia, oito meses depois, Jorge Luís é levado para o Rio de Janeiro, onde fica preso na cela 3 da Divisão de Recursos Especiais da Polícia Civil, na Barra da Tijuca.

6 de março de 1996, Jorge é encontrado morto na cela. Enforcado com a própria camisa. A versão oficial fala em suicídio, com um nó de marinheiro. Bolsonaro, logo se pronuncia: “não matei ninguém. Não fui atrás de ninguém! Mas aconteceu.”

Jorge Luís era casado com Márcia Frigues. Ela e a mãe, Terezinha Frigues de Lacerda, não aceitaram a versão policial. No velório, diante da imprensa, Márcia desmentiu a versão da polícia. Disse: Jorge nunca serviu na Marinha ou no Exército, não sabia dar aquele nó. “Como ele fez aquele nó da forca?”, perguntou. Um mês depois, Márcia e a mãe foram assassinadas a tiros. Corpos largados à margem da rodovia Presidente Dutra. Dois dias após o assalto, Bolsonaro recebeu de volta a moto e a pistola Glock. Pertences devolvidos por um então cabo da Polícia Militar.

Esse mesmo cabo que em 1995 devolveu os pertences a Jair Messias, em 2009 perdeu uma perna em um atentado e contou que Bolsonaro o ajudou a conseguir uma prótese. Duas décadas depois de devolver os pertences roubados por Jorge Luís, e uma década após a ajuda da prótese, o destino se revela: já reformado, o cabo tornou-se vizinho de Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro. Ambos asseguram: “mal se conhecem”. O prestativo cabo, depois sargento e vizinho, é Ronnie Lessa — O assassino de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Coincidência? Ou o fio invisível da história que insiste em costurar tragédias, silêncios e injustiças. Jorge Luís morreu sem respostas, Márcia e Terezinha foram silenciadas, e Bolsonaro jamais foi condenado ou sequer responsabilizado. O destino, cruel e irônico, continua a nos perguntar: até onde vai a coincidência, e onde começa a verdade?

Este texto não trata de política, mas de injustiça.

Ronnie Lessa condenado a 78 anos e 9 meses

Élcio de Queiroz condenado a 59 anos e 8 meses

Jair Bolsonaro – ex-presidente da República: 27 anos e três meses; local da prisão: Papudinha, em Brasília. Não por essa ligação com os assassinos de Marielle e o motorista, Anderson Gomes, mas por Organização criminosa armada, Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, Golpe de Estado, Dano qualificado pela violência e grave ameaça e Deterioração de patrimônio tombado.