Pesquise no Atlas das Vozes
Um território de política, memória e cultura — onde neutralidade nunca foi virtude.
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A chuva trouxe meu PAI
Chovia.
No céu, lágrimas.
Na terra, o corpo do pai.
Três anos e meio passaram.
Voltamos ao cemitério.
A mesma avenida,
a mesma rotatória,
o mesmo peso no peito.
Durvalino, servidor da terra,
disse com voz calma:
“Não está aqui o pai.
Só ossos.
O pai vive no coração.”
E a frase, tão simples,
font consolo.
Porque a morte é só isso:
a vida devolvida ao silêncio.
A chuva caía fina.
O frio nos tocava.
O medo se desfazia
na naturalidade dos ossos.
O crânio, que tanto quis ver,
era apenas forma.
Nada de mistério,
nada de dor além da nossa.
Recebemos um saco cinza,
cinco quilos de matéria.
Seguimos ao crematório.
Douglas nos recebeu com respeito.
Outro homem simples,
outro olhar humano.
No fim, uma caixa plástica.
Dentro, ossos.
Fora, lembranças.
E nós, sob a marquise,
esperando a chuva passar.
Rimos.
Choramos.
Lembramos.
E no balanço final,
restaram saudade e amor.
Obrigado, pai.
Fica em paz.
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