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O mundo está ao contrário e ninguém reparou

Justiça e vingança
ATLAS DAS VOZES

A cena é dessas que fariam Nando Reis suspirar e corrigir a própria letra: o mundo parece mesmo de ponta-cabeça — e a gente nem percebeu.

Em um bairro qualquer, uma história de interpretação torta reuniu menor infrator, bicicleta, amputação, tatuagem improvisada e, claro, internet. O roteiro não é de série policial. É jornal nacional de cada dia.

Um adolescente, já conhecido da vizinhança por pequenos furtos, some de casa, se envolve com drogas e resolve tentar levar a bicicleta de um senhor amputado. A tentativa é frustrada por dois rapazes que, indignados, decidem impor justiça com tinta e agulha. Tatua-se a testa do menino. Não é metáfora. É literal — e, além de ilegal, grotesco.

O Estado, que costuma chegar atrasado, dessa vez bateu na porta na hora: cadeia para os tatuadores justiceiros. O menor, por sua vez, saiu ileso — pelo menos nas vias criminais. E ainda ganhou uma vaquinha online para remover a marca do improviso punitivo. Quinze mil reais. Em época de orçamento curto, não é pouca coisa.

E aqui entra o nó que embaralha a cabeça de muita gente: quando o acusado vira protagonista sensível e os “defensores da moral” passam a vilões, o público torce o nariz. “Mas e a pessoa com deficiência, alguém abriu vaquinha para ele?”, pergunta a plateia revoltada. A retórica é conhecida. O debate, também.

Direitos humanos viram palavrão. Não raro, sinônimo de “direitos de bandido”. Enquanto isso, as estatísticas correm soltas: vítimas de violência morrem anônimas, suas famílias seguem à margem e a solidariedade coletiva raramente vira manchete. Justiça que tarda irrita. Justiça que frustra, mais ainda.

A indignação vira política criminal no improviso. Surgem propostas de castigos exemplares, prisões perpétuas e a volta do cadafalso em versão tropical. Tudo embalado na crença de que dor educa, medo corrige e exclusão moral salva. É a pedagogia do porrete, sempre disponível.

Mas justiça, em tese, não é espetáculo. Não é catarse coletiva. Não é tatuagem improvisada em um corpo vulnerável. Justiça não é vingança — ainda que o coração clame por ela. Quando o crime toma conta do cotidiano, a tentação de simplificar o problema é grande. Só que sistemas penais não vivem de soluções mágicas.

Porque, no fim, seguimos onde começamos: um menor, um crime pequeno, um país enorme. E a pergunta permanece no ar — quem errou mais? Quem julga quem? Quem lucra com a barbárie?

Criei a minha tese desse fato:

O episódio expõe um conflito recorrente no Brasil: o sentimento de abandono pela segurança pública se transforma em apoio a “justiças paralelas”. A mídia, ao destacar o sofrimento do infrator, é percebida por parte do público como aliada do crime, alimentando o clima de antagonismo. Ao mesmo tempo, a narrativa ignora com frequência as vítimas, mantendo o ciclo de ressentimento social.

O debate sobre punição vira disputa emocional, não discussão racional. Direitos humanos deixam de ser princípio universal e passam a etiqueta ideológica. Enquanto isso, seguimos sem enfrentar as causas estruturais do crime: desigualdade, ausência de políticas públicas eficazes e um sistema penal ineficiente — duro na retórica, precário na prática.

Quando a sociedade escolhe a vingança como bússola, perde-se a noção de justiça. E, ironicamente, todos acabam tatuados — não na testa, mas na consciência.