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R$ 815 bi no social vs. R$ 2,18 tri no ralo: a conta do cinismo
O barulho que se faz em torno do prato de comida do vizinho costuma ser inversamente proporcional ao silêncio que protege o cofre dos bancos. É uma aritmética perversa, essa, que transforma o sobrevivente em vilão enquanto o sistema escoa, por tubulações invisíveis ao olho da classe média, uma fortuna que daria para refundar o Brasil duas vezes por ano.
A seletividade do espanto
Não é difícil encontrar quem se indigne com os R$ 158 bilhões do Bolsa Família, ou que aponte o dedo para os R$ 112 bilhões destinados ao amparo de idosos e deficientes pelo BPC. O discurso do "gasto excessivo" é uma música que toca no repeat, ignorando que o SUS, com seus R$ 234 bilhões, é o que segura o país nas bordas do colapso, ou que o MEC e o Minha Casa Minha Vida tentam, com R$ 175 bilhões e R$ 136 bilhões, respectivamente, costurar um tecido social que insiste em esgarçar.
O problema não é o que se gasta para manter o humano vivo. O problema é o que se perde para manter o rentismo alimentado.
Enquanto a discussão pública se perde em migalhas, o ralo da dívida pública engole, sem mastigar, R$ 998 bilhões em juros. É quase um trilhão de reais transferido diretamente para o topo da pirâmide, um subsídio ao capital que não gera um emprego, não levanta um tijolo, não ensina uma letra.
Onde o dinheiro realmente some
Somam-se a isso os R$ 627 bilhões que os super-ricos sonegam — uma arte nacional praticada em escritórios com vista para o mar — e os R$ 560 bilhões em isenções fiscais que raramente se traduzem em benefício para quem está no chão da fábrica.
No total, são R$ 2,185 trilhões que evaporam. É o nosso dinheiro humano transformado em planilha fria, em evasão consentida, em privilégio que não se discute no jantar de domingo.
A classe média, essa que se sente sócia do clube mas só paga a mensalidade, prefere olhar para baixo. É mais fácil culpar o miserável que conseguiu colocar carne no prato do que encarar o bilionário que não paga imposto sobre o iate. A indignação brasileira é seletiva, tem cor e tem endereço, mas, no fim do dia, quem paga a conta da safadeza institucionalizada é o mesmo de sempre.
O dinheiro escoa, a desigualdade fica, e o silêncio de quem lucra continua sendo o som mais alto da nossa economia.
Comparar não é confundir
Misturar despesas orçamentárias com renúncias e estimativas de sonegação seria erro técnico se a intenção fosse fechar balanço. Não é. A comparação serve para expor prioridades do debate público. Enquanto se discute o custo do BPC, mais de meio trilhão em benefícios fiscais permanece naturalizado como política econômica.
A régua é seletiva. E isso não é detalhe.
| Item de Gasto / Perda | Valor (R$ Bilhões) |
|---|---|
| SUS (Saúde) | 234 |
| Educação (MEC) | 175 |
| Bolsa Família | 158 |
| Minha Casa Minha Vida | 136 |
| BPC / LOAS | 112 |
| Juros da Dívida Pública | 998 |
| Sonegação dos Super-Ricos | 627 |
| Isenção Fiscal | 560 |
Fontes: Relatórios do Tesouro Nacional, Lei Orçamentária Anual (LOA), Sinprofaz e Receita Federal.
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