Pular para o conteúdo principal

Em alta

O erro como método: o que Tarcísio esconde sob o quepe das escolas cívico-militar

O erro como método: o que Tarcísio esconde sob o quepe das escolas cívico-militar
Infográfico comparativo entre escola militar de elite e o modelo cívico-militar das periferias de São Paulo
Por RICO RUSSO | A Engrenagem e o Mando |ATLAS DAS VOZES

O giz que falha no quadro negro de São Paulo não é um acidente, é um projeto. O erro ortográfico validado pelo governo revela a face de um sistema que troca o saber pela disciplina cega.

A imagem do professor escrevendo errado em uma das unidades do programa cívico-militar de Tarcísio de Freitas, nesta semana de fevereiro de 2026, serviu para muito mais do que memes em redes sociais. Serviu para o governador subir no palanque e dizer que o erro está correto, que o importante é a disciplina.

É o Brasil onde a concordância nominal ajoelha diante da ordem unida.

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

A extrema-direita protege esse modelo com unhas e dentes porque ele não é sobre educação, é sobre cercamento. Existe um abismo entre as escolas militares tradicionais — aquelas de elite, com infraestrutura de primeiro mundo e seleção rigorosa — e esse "puxadinho" ideológico que o governo pós-bolsonarista empurra nas periferias paulistas.

Nas antigas cívico-militar, o foco era o desempenho acadêmico sob uma ética de Estado. No modelo de Tarcísio, o foco é a gestão do comportamento por policiais da reserva que, muitas vezes, entendem de tática de rua, mas não de pedagogia de sala de aula.

O perigo mora exatamente aí: na substituição do pensamento crítico pela obediência cega.

O governo protege esse sistema porque ele oferece uma resposta simples, e falsa, para a insegurança pública. Dizem aos pais que o uniforme e o corte de cabelo vão salvar os filhos das drogas, enquanto retiram dos professores a autonomia de ensinar que o mundo é maior que um quartel.

Não se enganem. O erro no quadro verde não foi um deslize gramatical. Foi o símbolo de um ensino que não se importa com o saber, desde que o aluno saiba bater continência para quem manda. É a pedagogia do silenciamento travestida de ordem.

O joio cresceu tanto que já nem tentam mais esconder que o trigo foi esquecido no celeiro. Se o erro é o novo certo, o futuro de São Paulo está sendo escrito com a gramática do autoritarismo.

Ou a gente entende que escola é lugar de dúvida, ou aceitamos que ela vire apenas um pátio de triagem para a conformidade. Educação não se faz com bota no chão, se faz com ideia na cabeça. E ideia, governador, não costuma aceitar ordem de silêncio.

Fontes: Notas do Saed, Secretaria de Educação de SP, Reportagens Locais.