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A República de Curitiba no divã: o fundo do poço de um ex-herói

Imagem conceitual de um gravador de rolo antigo e um martelo de juiz sobre documentos secretos em um escritório escuro, simbolizando grampos ilegais e segredos judiciais.
Por Rico Russo | Brasil em Teste | ATLAS DAS VOZES

Documentos da PF revelam como o ex-juiz operou uma estrutura de grampos ilegais para monitorar autoridades e blindar seu projeto de poder.

O ex-juiz que outrora se imaginava um paladino da moralidade pública parece, agora, ter reencontrado o seu lugar na história: não nos altares, mas nos arquivos de inquéritos da Polícia Federal que exalam o odor acre do arbítrio. As revelações que emergem das gavetas da 13ª Vara Federal de Curitiba não tratam de deslizes processuais ou interpretações criativas da lei; tratam, objetivamente, da construção de uma "Abin particular" montada para vigiar quem estivesse fora de seu alcance legal.

A engrenagem do xerife de fronteira

Os documentos apreendidos pela PF, sob ordens do Supremo Tribunal Federal, desenham um magistrado que operava como um xerife de fronteira. Ao determinar o monitoramento ilegal de autoridades com foro privilegiado — como desembargadores e conselheiros de tribunais de contas —, o então juiz atropelou o rito constitucional para criar dossiês que serviam mais à pressão política do que à justiça.

O método era de uma rusticidade espantosa. Usava delatores como Tony Garcia para infiltrar conversas e gravar alvos que, por lei, só poderiam ser investigados pelas cortes superiores. Em despachos que agora vêm à luz, o ex-magistrado chegava a reclamar da qualidade dos áudios, agindo simultaneamente como polícia, promotor e juiz — uma tríade incompatível com qualquer democracia que se pretenda séria.

As motivações desse projeto parecem cada vez mais claras à medida que o sigilo dos autos se desfaz: a busca por vulnerabilidades alheias para garantir a manutenção de um projeto de poder que usava a toga como escudo e degrau. O que as autoridades federais agora investigam é o crime continuado: a ocultação deliberada dessas ilegalidades por décadas, uma manobra para fugir da prescrição e das punições administrativas.

O rastro do monitoramento

O senador, que hoje clama por honestidade, vê-se confrontado por registros de sua própria autoria. A queda do pedestal é vertiginosa, e o fundo do poço parece ter mais camadas do que as sentenças anuladas que o antecederam. Para quem acreditava estar acima da lei, o encontro com o Código Penal promete ser um exercício de humildade que a arrogância de Curitiba jamais permitiu.

As investigações apontam que o monitoramento não era um evento isolado, mas uma política de estado dentro da própria vara. Ao manter sob sua guarda documentos que deveriam ter sido remetidos às instâncias superiores, o ex-juiz garantiu que o sistema de freios e contrapesos fosse substituído pelo seu próprio controle pessoal sobre a vida de figuras públicas.

O impacto dessas revelações atinge o coração da narrativa de integridade da Lava Jato. Se o juiz que julgava os corruptos utilizava métodos corruptos para vigiar quem o fiscalizava, o resultado não é justiça, mas um sequestro institucional para fins particulares. A PF agora cruza os dados dos grampos com decisões judiciais proferidas à época para verificar se houve chantagem direta.

No rastro de Tony Garcia, novos nomes de colaboradores podem surgir. O delator afirma que o ex-juiz tinha plena ciência de que as gravações eram ilegais e que o objetivo era "ter Brasília nas mãos". O silêncio que antes cercava esses métodos agora dá lugar a depoimentos detalhados que colocam o senador em uma posição defensiva inédita.

A defesa do ex-juiz alega que todas as medidas foram tomadas dentro da legalidade do combate ao crime organizado, mas os documentos periciados pela PF contradizem essa versão ao mostrar ordens diretas para monitorar quem não era alvo de investigação criminal. A diferença entre investigação e perseguição está justamente no cumprimento do rito.

Por fim, o STF deve analisar a validade de todas as provas colhidas sob esse regime de exceção. Se o fruto da árvore é envenenado, todo o pomar de Curitiba corre o risco de ser enterrado definitivamente sob o peso das leis que eles mesmos fingiram defender.

Ponto de Investigação Detalhe da Irregularidade
Grampos de Autoridades Monitoramento de desembargadores e conselheiros sem aval do STF.
Uso de Infiltrados Tony Garcia atuava sob ordens diretas para gravar alvos políticos.
Gestão de Provas Ocultação de documentos por décadas para evitar prescrição criminal.

Fontes: G1, Bandeirantes, Veja, Uol e documentos oficiais da Polícia Federal.