Apagão em São Paulo: Enel, privatizações e o modelo que está no escuro
O paulistano não mora numa cidade. Mora numa concessão.
A luz vem de contrato assinado em 1998, quando o governo Mário Covas vendeu a distribuidora com o argumento clássico: o Estado é lento, o mercado é ágil. A promessa era investimento, modernização, menos interferência política. O poste passaria a responder ao lucro. Parecia lógico.
Décadas depois, a empresa mudou de dono até chegar à italiana Enel. A chuva continua brasileira, mas a sede é romana. Globalização também molha fio.
Vieram os temporais de 2023 e 2024. Milhões sem energia por dias. Não foi metáfora. Foi geladeira desligada, comércio fechado, elevador parado, hospital no gerador.
No primeiro momento, o discurso foi técnico. A concessionária resolveria. A Aneel fiscalizaria. O contrato seria cumprido. O mercado se ajustaria. Era uma reação coerente com quem defende a privatização como solução estrutural: o modelo funciona, basta aplicá-lo direito.
A indignação oficial ganhou volume depois que a cidade já estava no escuro e a imprensa transformou o apagão em manchete permanente. A partir daí vieram as reuniões com Lula, as conversas com o Ministério de Minas e Energia, o pedido formal de intervenção à Aneel. A crítica pública substituiu a cautela contratual.
Convém lembrar: quem pode romper a concessão é a União. A chave do contrato não fica no Morumbi nem no Viaduto do Chá. Fica em Brasília. Mas o barulho político começa sempre mais perto do microfone — e cresce quando a promessa começa a falhar.
O curioso é que o discurso da eficiência privada sempre foi vendido como blindagem contra crise. Privatiza-se para evitar apagão. Quando o apagão vem, pede-se socorro ao Estado que saiu da foto.
Não foi só a energia.
O governo Tarcísio acelerou concessões e privatizações:
- Sabesp, com a promessa de universalizar saneamento mais rápido;
- Linhas da CPTM concedidas à iniciativa privada;
- Lote do Rodoanel Norte;
- Novos pacotes de rodovias;
- Estudos para privatização do Metrô e da EMTU.
A tese é conhecida: menos Estado operador, mais Estado regulador. O setor privado investe melhor. O serviço melhora. A conta fecha.
O problema é que regular exige presença. E presença custa estrutura, fiscalização, contrato duro e multa aplicada. Sem isso, a eficiência vira PowerPoint e o contrato vira escudo.
A Sabesp ainda está no começo da transição. Mas o fantasma já aparece na conversa de bar: se faltar água como falta luz, o argumento continuará o mesmo? A promessa também?
Não se trata de dizer que privatização é sinônimo automático de fracasso. Há concessões que funcionam. O ponto é outro: quando o modelo é defendido como solução definitiva e a crise se repete, a falha deixa de ser apenas operacional. Ela se torna política. Porque foi uma escolha.
Ano pré-eleitoral é sempre mais iluminado. O governador sobe o tom contra a Enel. O prefeito também. Ambos batem à porta do presidente da República. A empresa promete plano de contingência. A Aneel abre processo. A cena se repete.
Privatiza-se o serviço. Socializa-se o desgaste.
No fim, o cidadão compra vela. Não por ideologia. Por necessidade.
E aprende uma coisa simples: contrato não substitui poste em pé.
Quando a luz volta, o discurso continua o mesmo. O modelo também. O escuro é que insiste.
Fontes: Aneel; Governo do Estado de São Paulo; Ministério de Minas e Energia; dados públicos oficiais.