Carlos Bolsonaro - o cofre, a laranja e o processo acordou
A investigação criminal contra Carlos Bolsonaro por desvio de dinheiro público e rachadinha é reaberta no exato momento em que ele perde a blindagem do mandato.
Por Rico Russo | Atlas das Vozes
O processo estava dormindo numa gaveta, pegando pó desde setembro de 2023. Alguém, finalmente, resolveu abrir. Hoje, 24 de fevereiro, a investigação criminal contra Carlos Bolsonaro por desvio de dinheiro público, funcionário fantasma e rachadinha foi reaberta. Só que agora o cenário é outro. Ele não tem mais o mandato de vereador para amortecer o impacto. A blindagem derreteu.
Parem e pensem na matemática da coisa. O sujeito tem um plano de saúde por nove anos. Nove anos. Sabe quantos boletos saíram da conta bancária dele nesse período inteiro? Um. Um único boleto. O resto das mensalidades simplesmente não existe no banco. Foram pagas, claro, mas por assessores ou em dinheiro vivo. É um deboche aberto com quem conta os centavos para pagar o próprio boleto no fim do mês.
O mesmo truque de mágica aparece na compra de um apart-hotel em Copacabana, lá em 2009. Comprado à vista. No cartório, o valor declarado foi de 70 mil reais, uma pechincha que beira o ridículo, já que a própria prefeitura avaliava o imóvel em 236 mil na época. É o tipo de negócio que só existe em um lugar: na lavanderia. Quando o dinheiro não pode passar pelo sistema financeiro, o tijolo vira a moeda perfeita.
O que acelerou as coisas agora foi movimento físico. Ele foi ao banco abrir um cofre particular. Os investigadores cruzaram isso com o histórico de visitas ao cofre que ele já mantinha e com o mapeamento dos contatos com Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro. Ela não é uma personagem periférica. Foi a chefe de gabinete dele. Ela aparece na história como a operadora original do esquema, a engrenagem que usava laranjas para receber os depósitos e esconder a origem dos repasses.
As conversas saíram do celular e o rastro do dinheiro vivo bateu na porta do cofre. A conta não costuma falhar.
O histórico que ronda Carlos Bolsonaro concentra-se no período em que a Câmara Municipal do Rio de Janeiro serviu como base financeira. As frentes de investigação que agora fecham o cerco são claras:
• Rachadinha e Funcionários Fantasmas: O esquema de devolução ilegal de salários de assessores nomeados, muitos dos quais sequer pisavam na Câmara.
• Lavagem de Dinheiro via Imóveis: Uso sistemático de dinheiro vivo para comprar propriedades com valores declarados em cartório drasticamente inferiores aos de mercado.
• Ocultação de Patrimônio (Cofre Bancário): Manutenção de um cofre no Banco do Brasil para estocar grandes volumes de dinheiro em espécie, escapando do radar do Coaf.
• Pagamento de Despesas por Terceiros: Contas pessoais estruturais, como planos de saúde, sendo quitadas regularmente por chefes de gabinete e servidores.