Em alta

Tatiana Sampaio e a polilaminina: ciência brasileira chega ao primeiro teste em humanos

Tatiana Sampaio e a polilaminina: ciência brasileira chega ao primeiro teste em humanos
Tatiana Sampaio e pesquisa com polilaminina para regeneração da medula espinhal
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

Pesquisa da UFRJ avança para fase clínica e coloca o Brasil no centro da medicina regenerativa com testes autorizados pela Anvisa em 5 de janeiro de 2026.

Por muito tempo, a ideia de regenerar a medula espinhal depois de uma lesão grave ficou circunscrita ao imaginário da medicina experimental. Nos últimos anos, parte dessa ideia deixou de ser futurismo e virou documento regulatório e protocolo clínico.

No dia 5 de janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou formalmente o início de um estudo clínico de fase 1 que avalia a segurança da aplicação da substância chamada polilaminina em pacientes com lesão medular aguda — um marco que só foi possível após anos de pesquisa e articulação entre academia, indústria e órgãos públicos.

O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, junto com o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle. Na ocasião, Padilha destacou a importância do avanço e afirmou que a autorização representa “um passo importante para a saúde e para o fortalecimento da pesquisa clínica no Brasil”.

Quem é Tatiana Sampaio

Tatiana Coelho de Sampaio é bióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular. Ela coordena a pesquisa da polilaminina, um projeto que começou nos anos 1990 e se consolidou ao longo de cerca de 25 anos de investigação científica.

A polilaminina é uma forma polimerizada da proteína laminina, extraída da placenta humana para uso terapêutico, com base em estudos que demonstraram seu papel na regeneração de tecido nervoso em modelos animais e, em algumas situações, em humanos experimentais.

O estudo clínico: datas e etapas

A autorização de 5 de janeiro de 2026 permite o início da fase 1 do estudo clínico, que é a etapa inicial de avaliação em humanos. O objetivo dessa fase é testar a segurança da aplicação da polilaminina em pacientes com lesão raquimedular aguda, antes de qualquer avaliação de eficácia.

O estudo envolve:

- 5 pacientes voluntários, com idade entre 18 e 72 anos;
- Lesões medulares completas agudas, entre as vértebras T2 e T10;
- Momento da aplicação: preferencialmente dentro de 72 horas após a lesão;
- Local ainda a ser definido pela empresa responsável, com possibilidades de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo ou Espírito Santo.

A análise dessa fase deve se estender por vários meses, com foco estrito na detecção de possíveis efeitos adversos e na segurança geral do procedimento experimental.

Somente depois da conclusão das fases 2 e 3 — que ainda dependem de resultados positivos na fase 1 — uma eventual proposta de registro do medicamento junto à Anvisa pode ser considerada.

Recursos e investimentos

O estudo que chegou à Anvisa como protocolo clínico em 2026 tem decorrência de anos de financiamento científico, incluindo recursos públicos utilizados em infraestrutura, bolsas de pesquisa e produção científica.

O Ministério da Saúde participou da estruturação e autorização ética do estudo, bem como da coordenação das etapas que antecedem os testes com humanos — como a análise ética e o investimento em pesquisa básica.

Quanto a valores exatos de investimento público até o momento, dados consolidados de financiamento público direto (por exemplo, em reais) não estão amplamente detalhados em fontes abertas. O que se sabe é que a pesquisa recebeu apoio institucional por meio de agências de fomento ligadas ao sistema federal de ciência e tecnologia, o que inclui bolsas e infraestrutura para desenvolvimento da pesquisa ao longo de décadas.

O papel de Anvisa e do Comitê de Inovação

A autorização que começou em 5 de janeiro de 2026 foi concedida após análises de documentação submetida pela empresa patrocinadora do estudo — Cristália Produtos Químicos e Farmacêuticos Ltda. — e pelo grupo de pesquisadores da UFRJ.

A polilaminina foi incorporada ao Comitê de Inovação da Anvisa, criado em 2025 com o objetivo de acompanhar, monitorar e priorizar tecnologias consideradas de interesse estratégico de saúde pública — o que acelerou a análise e resultou, segundo informações oficiais, em uma redução de quase 60% no tempo de aprovação de pesquisas clínicas nos meses anteriores.

Pedidos de acesso na Justiça antes dos testes clínicos

Antes mesmo da liberação pela Anvisa, alguns pacientes com lesão medular recorreram à Justiça para obter o tratamento em caráter experimental — com decisões judiciais concedendo o uso da polilaminina sob critérios de “uso compassivo”.

Relatórios desse tipo de ação indicam que, em meados de janeiro de 2026, seis pacientes haviam recebido autorização judicial para acesso ao tratamento experimental sob monitoramento médico antes do início oficial da fase 1 dos estudos.

FASE ATUAL (18/02/2026)
Estudo clínico fase 1 autorizado pela Anvisa em 05/01/2026.
Avaliação exclusiva de segurança.
Sem registro como medicamento.
Sem disponibilidade comercial.

Polilaminina em 2026: espaço de possibilidades e limitações

A trajetória da polilaminina até aqui atravessa décadas de pesquisa, fases piloto com resultados iniciais promissores e agora o primeiro ensaio clínico regulado pela Anvisa. Até o momento, a substância não foi registrada como medicamento e não está disponível para uso amplo, mesmo com pedidos judiciais para acesso compassivo.

Na ponta da ciência, a expectativa é que a fase 1 conclua se a aplicação em humanos é segura e indique caminhos para fases posteriores, que testariam eficácia em número maior de pacientes. Isso é um passo essencial para qualquer tratamento que aspire a transformar a abordagem de lesões que, até pouco tempo atrás, eram consideradas irreversíveis.

Ainda que a pesquisa brasileira esteja agora no radar global — com reconhecimento acadêmico e regulatório — o tempo e os resultados ditarão se o que hoje é promessa poderá se tornar um tratamento disponível no futuro.

Fontes: Ministério da Saúde (05/01/2026); Anvisa; UFRJ; Cristália; registros públicos de ensaios clínicos; decisões judiciais sobre uso compassivo.