Pesquise no Atlas das Vozes
Um território de política, memória e cultura — onde neutralidade nunca foi virtude.
Em alta
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
O Inventário da República: de Getúlio a Lula
O INVENTÁRIO DO PLANALTO
A cadeira presidencial costuma ser ingrata com quem despreza a liturgia. No Brasil, o desejo de mudar tudo esbarra, cedo ou tarde, na engrenagem que mói os amadores. Olhar para a galeria de presidentes, de Getúlio até aqui, é menos um exercício de nostalgia e mais uma constatação de como a democracia brasileira sobreviveu a trancos, barrancos e alguns desvios de rota.
Getúlio Vargas
O gaúcho que subiu o Catete para refundar o país não era um democrata por convicção. Criou a CLT, a Vale e a base do que entendemos por indústria nacional, mas fez isso sob a sombra da censura e da repressão do Estado Novo. Foi o "pai dos pobres" que só aceitou o voto popular quando não havia mais outra saída.
- O Lado Bom: A estruturação das leis trabalhistas e o fomento à indústria de base.
- O Lado Ruim: O autoritarismo escancarado e a perseguição sistemática a opositores.
| O Box da Constituição: O regime de Vargas é a negação do que está escrito no Artigo 5º da Carta de 88. A Constituição atual foi desenhada justamente para que o arbítrio daquela era nunca mais encontrasse abrigo no Diário Oficial. |
Eurico Gaspar Dutra
O marechal que herdou o fim do varguismo era um homem de silêncios e formalidades. Tentou alinhar o Brasil aos Estados Unidos e trouxe uma constituição liberal em 1946. Mas o governo foi marcado por uma visão tacanha, que gastou as reservas do pós-guerra em bens de consumo e proibiu o jogo de azar por puro moralismo.
- O Lado Bom: A redemocratização e o respeito formal às instituições após a ditadura.
- O Lado Ruim: A falta de projeto econômico e a proibição dos cassinos, que secou uma fonte importante de turismo e receita.
| O Box da Constituição: Dutra representa o primeiro esforço de submeter a farda ao gabinete civil, um princípio que 88 tentou blindar, embora a prática ainda apresente fissuras. |
Juscelino Kubitschek
A promessa de JK era um Brasil que andava de carro e ouvia Bossa Nova. Brasília nasceu no meio do nada para ser o centro de tudo, uma obra faraônica que interiorizou o país, mas deixou uma conta salgada. Juscelino tinha pressa, e a pressa costuma ignorar o equilíbrio das contas.
- O Lado Bom: A modernização da infraestrutura e a interiorização da capital.
- O Lado Ruim: O endividamento externo e o gatilho de uma inflação que assombraria o país por décadas.
| O Box da Constituição: O voluntarismo de JK hoje esbarraria na Lei de Responsabilidade Fiscal. Em 88, o planejamento deixou de ser uma vontade do presidente para ser um imperativo legal. |
Jânio Quadros
Jânio foi o precursor do populismo de rede social, antes mesmo da internet. Governava por bilhetinhos e proibia brigas de galo enquanto o país precisava de rumo. Achou que a renúncia seria um golpe de mestre para voltar nos braços do povo, mas acabou saindo pela porta dos fundos, deixando um país estagnado.
- O Lado Bom: A tentativa de uma política externa que não se curvava automaticamente a blocos.
- O Lado Ruim: O desrespeito ao Congresso e o abandono do cargo por puro narcisismo.
| O Box da Constituição: A Carta de 88 tirou do presidente o poder de decidir o destino do país sozinho. Hoje, um "bilhetinho" de Jânio seria apenas um anexo em um processo de impeachment. |
João Goulart
Jango era um latifundiário com discurso social que nunca conseguiu convencer a elite nem as Forças Armadas. Suas reformas de base eram necessárias, mas ele não teve o apoio político para sustentá-las no auge da Guerra Fria. O desfecho foi o golpe que mergulhou o país no escuro por 21 anos.
- O Lado Bom: A agenda de reformas educacional e agrária.
- O Lado Ruim: A paralisia política e o isolamento que facilitaram a ruptura democrática.
| O Box da Constituição: A proteção aos direitos sociais em 88 é o que Jango tentou fazer por decreto. A diferença é que hoje esses direitos têm o peso da lei, não da vontade pessoal. |
Os Generais (1964-1985)
O período militar entregou estradas e usinas, mas cobrou o preço em sangue e silêncio. Foi o tempo do "ame-o ou deixe-o", onde o Estado se sentia no direito de torturar e censurar. O milagre econômico era real, mas a conta chegou com juros altos na década seguinte.
- O Lado Bom: Obras de infraestrutura como Itaipu e a expansão das telecomunicações.
- O Lado Ruim: A repressão institucionalizada, o fim das liberdades e a explosão da dívida externa.
| O Box da Constituição: 88 é a "Constituição Coragem" porque nasceu para ser o oposto de tudo o que os generais representavam. É o escudo do cidadão contra o Estado armado. |
José Sarney
Sarney foi o homem do sistema que precisou gerir a esperança de um país que chorava a morte de Tancredo. Teve o mérito de conduzir a transição sem sangue, mas foi engolido por uma inflação galopante que trocava os preços nas prateleiras várias vezes ao dia.
- O Lado Bom: A convocação da Constituinte e a pacificação política.
- O Lado Ruim: O fracasso retumbante dos planos econômicos, como o Cruzado.
| O Box da Constituição: O governo Sarney foi o parto da Carta de 88. Ele foi o zelador da casa enquanto as novas regras estavam sendo escritas. |
Fernando Collor
O "caçador de marajás" que prometeu o futuro e entregou o confisco. Collor abriu o mercado para os "carrões" estrangeiros, mas travou a economia ao confiscar a poupança. Caiu quando o esquema de corrupção dentro do Planalto ficou impossível de esconder.
- O Lado Bom: O fim da reserva de mercado de informática e a abertura econômica.
- O Lado Ruim: O desrespeito ao direito de propriedade e a corrupção sistêmica.
| O Box da Constituição: O impeachment de Collor provou que a Constituição de 88 não era apenas papel. As instituições funcionaram e o sistema expulsou o corpo estranho sem traumas militares. |
Itamar Franco
O mineiro que parecia exótico, mas era pragmático. Itamar deu o palco para o Plano Real e devolveu a estabilidade ao bolso do brasileiro. Não tinha grandes projetos de poder, o que talvez tenha sido o seu maior trunfo para acalmar o país.
- O Lado Bom: O Plano Real e a integridade pessoal.
- O Lado Ruim: A instabilidade emocional que quase pôs tudo a perder em momentos de crise.
| O Box da Constituição: Itamar mostrou que o respeito à liturgia e a delegação técnica são os caminhos que a Constituição de 88 premia. |
Fernando Henrique Cardoso
O sociólogo que ensinou o país a confiar na moeda. Organizou a economia, privatizou estatais ineficientes e desenhou a rede de proteção social. Mas a reeleição comprada e o desemprego do segundo mandato deixaram um gosto amargo no final da festa.
- O Lado Bom: A Lei de Responsabilidade Fiscal e o controle da inflação.
- O Lado Ruim: A emenda da reeleição e a crise do apagão energético.
| O Box da Constituição: FHC usou o mecanismo de emendas para moldar a Constituição ao seu projeto de Estado, uma prática que abriu caminho para futuras distorções no texto. |
Luiz Inácio Lula da Silva
O ex-retirante que trouxe o consumo para as massas. Lula surfou na bonança externa e tirou milhões da miséria, mas permitiu que o projeto de poder do PT se misturasse com o dinheiro público em esquemas que abalaram a República.
- O Lado Bom: A inclusão social e a projeção do Brasil no cenário global.
- O Lado Ruim: Os escândalos do Mensalão e do Petrolão.
| O Box da Constituição: O governo Lula testou a independência das instituições previstas em 88, especialmente o Ministério Público e o Judiciário. |
Dilma Rousseff
A técnica que não sabia ouvir. Dilma tentou dobrar a realidade econômica com canetadas, o que gerou uma reflexão profunda. Sem apoio no Congresso e com as contas em frangalhos, foi removida do cargo em um processo que dividiu o país.
- O Lado Bom: A manutenção dos programas sociais e a Comissão da Verdade.
- O Lado Ruim: A desastrosa "Nova Matriz Econômica" e a paralisia política.
| O Box da Constituição: O impeachment de Dilma reafirmou que a responsabilidade fiscal é um pilar da sobrevivência política sob o regime de 88. |
Michel Temer
O vice que conhecia cada fresta do Congresso. Temer assumiu para "estancar a sangria" e aprovou reformas impopulares, mas passou boa parte do tempo tentando escapar das denúncias que cercavam seu gabinete.
- O Lado Bom: A Reforma Trabalhista e o Teto de Gastos.
- O Lado Ruim: A baixíssima legitimidade popular e as crises de corrupção.
| O Box da Constituição: Temer foi a prova de que o presidencialismo de coalizão de 88 exige um operador político habilidoso, mesmo que sem carisma. |
Jair Bolsonaro
O governo do conflito permanente. Bolsonaro digitalizou o Estado e aprovou o marco do saneamento, mas o mandato foi marcado pelo desprezo às instituições, pelo negacionismo na saúde e pelo isolamento diplomático.
- O Lado Bom: A digitalização de serviços públicos e avanços em infraestrutura logística.
- O Lado Ruim: O ataque sistemático ao sistema eleitoral, a gestão temerária da pandemia e o uso da máquina pública para blindar o clã familiar. Deixou como marca o entulho dos sigilos de 100 anos, uma tentativa vã de esconder o que a incompetência e o desvio de finalidade não deram conta de mascarar — o que, somado ao flerte com o golpismo, pavimentou seu caminho para a prisão e a inelegibilidade.
| O Box da Constituição: Bolsonaro foi o teste de estresse final da Carta de 88. O sistema de pesos e contrapesos — STF e Congresso — serviu de trava contra as tentações autoritárias. |
Luiz Inácio Lula da Silva (2023-Presente)
O terceiro ato de Lula no Planalto não tem o brilho da bonança das commodities nem a facilidade do "Lulinha paz e amor". É um governo de reconstrução sobre escombros, operando em um país rachado ao meio e com um Congresso que cobra caro por cada centímetro de governabilidade. Lula voltou para provar que a política institucional ainda respira, mas descobriu que o oxigênio está mais escasso e o preço do apoio, mais alto do que nunca.
- O Lado Bom: A retomada da diplomacia ativa e a volta do Brasil ao centro das discussões climáticas. O controle da inflação e a resiliência do mercado de trabalho, somados à reestruturação de políticas sociais que haviam sido desmontadas.
- O Lado Ruim: O desequilíbrio fiscal e a dificuldade em fechar as contas públicas. A dependência excessiva de uma articulação política que entrega as chaves do orçamento ao Legislativo, enfraquecendo o poder de planejamento do Executivo em troca de uma estabilidade cara.
| O Box da Constituição: O terceiro mandato de Lula é o exercício da "Constituição de Resistência". Reafirmou a soberania do voto após o teste de estresse institucional, mas evidenciou um presidencialismo de coalizão que agora beira um parlamentarismo branco, onde o Executivo propõe e o Legislativo dispõe das verbas. |
A história é esse rascunho mal acabado, cheio de rasuras. No fim das contas, não sobrevive quem grita mais alto ou quem se acha mais forte, mas quem entende, meio aos trancos, que a Constituição não é uma barreira que trava o jogo, é o único chão que a gente tem pra pisar. Sem ela, o que sobra é só o barulho vazio de quem nunca aprendeu a governar de verdade.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos