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O rastro do Master: a Polícia Federal, o STF e o efeito dominó no sistema financeiro

O rastro do Master: a Polícia Federal, o STF e o efeito dominó no sistema financeiro
Efeito dominó com nomes ligados ao caso Banco Master em mesa de investigação da Polícia Federal simbolizando crise no sistema financeiro
Por Ricardo Russo | ATLAS DAS VOZES

O que começou como um problema contábil no Banco Master virou uma crise institucional.

E, em fevereiro de 2026, a fatura ainda não foi paga — mas já começou a chegar.

Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, comandado pelo empresário Daniel Vorcaro. À época, as suspeitas envolviam operações que inflaram artificialmente ativos e CDBs acima do mercado para sustentar níveis de captação insustentáveis.

Desde então, a crise arrastou autoridades financeiras, órgãos de controle e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) para o centro do furacão.

O cerco se fechou

A Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, aprofundou as investigações.

No início de 2026, o foco ultrapassou o banco falido: foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Vorcaro e parentes próximos, incluindo pai, irmã e cunhados, resultando no bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões e apreensão de bens de luxo.

O relatório da PF, obtido por fontes do Judiciário, menciona supostas conexões entre Vorcaro e o ministro Dias Toffoli, então relator dos autos no STF. Após semanas de pressão pública, Toffoli decidiu se afastar da relatoria do caso, alegando a importância institucional do processo. Seu relatório foi transferido para outro ministro.

Oficialmente, ele nega qualquer relação imprópria com Vorcaro ou recebimento de valores.

Mas a discussão sobre conexões políticas reacendeu um debate maior sobre transparência na Corte.

O efeito dominó no mercado

O impacto não ficou restrito ao Master.

O Banco Regional de Brasília (BRB), que havia estudado comprar o Master antes da liquidação, descobriu “achados relevantes” nas auditorias internas e entregou relatórios preliminares à PF e ao Banco Central, enquanto tenta conter prejuízos e reforçar controles.

Depoimentos à PF indicaram que o BRB rejeitou bilhões em ativos durante a negociação com o Master — incluindo cerca de R$ 51,2 bilhões em ativos e passivos e outros R$ 5 bilhões supostamente atribuídos a carteiras sem lastro.

Paralelamente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu um pente-fino nas operações entre o Master, BRB e corretoras investigadas, com o objetivo de mapear irregularidades que podem ter exposto investidores e fundos públicos a riscos.

O Congresso entra no jogo

Com o caso ganhando contornos nacionais, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado instalou um grupo de trabalho permanente para acompanhar as investigações sobre o Master e suas ramificações.

Senadores destacaram que a liquidação do Master, decretada em novembro de 2025, deveria ter ocorrido mais cedo, e que há necessidade de requisição de documentos sigilosos para entender a atuação de órgãos como Banco Central, CVM, PF e TCU.

Convites foram aprovados para que PF, BC, CVM, TCU e ex-presidentes do BRB e do Master, incluindo o próprio Vorcaro, prestem esclarecimentos ao colegiado.

O rastro começa no passado

As operações que levaram ao colapso financeiro do banco não surgiram do nada.

Sob a direção de Vorcaro, o patrimônio do Master cresceu de maneira acelerada entre 2019 e 2024 — de cerca de R$ 200 milhões para bilhões de reais — sustentado em grande parte pela emissão de CDBs com retornos acima da média de mercado e carteiras de crédito lastreadas em ativos complexos e de difícil avaliação.

A estratégia atraiu atenção e capital.

Mas também gerou riscos significativos.

Em meio a essa expansão, fundos ligados ao próprio banco passaram a assumir papéis que, posteriormente, foram questionados por sua real liquidez e transparência, ocasionando a intervenção do Banco Central e a liquidação extrajudicial do Master ao fim de 2025.

Uma crise que ainda não acabou

O caso do Banco Master deixou de ser apenas uma falência bancária.

Virou um teste de estresse para o sistema regulatório brasileiro.

Entre expectativas de aprofundamento das quebras de sigilo tecnológico, audiências públicas, acolhimento de documentos confidenciais e cruzamento de dados, a investigação agora envolve poderes distintos — Executivo, Judiciário, Legislativo e instituições de controle.

A mistura de gestão arriscada, relações políticas e redes de influência criou uma crise que segue sem definição clara.

E, enquanto a sociedade acompanha cada novo capítulo, o sistema financeiro observa com um misto de apreensão e curiosidade.

Porque o rastro do Master ainda está longe de ser conhecido por completo.


Fontes atualizadas até 19/02/2026

• Relatório e ações da CAE no Senado Federal relacionadas ao Banco Master e suas ramificações.

• Polícia Federal e extração de dados ligados a Vorcaro e parentes.

• Recusa de Dias Toffoli no caso e realocação no STF.

• Apuração do BRB sobre achados relevantes e entrega de relatórios a autoridades.

• Depoimentos sobre exclusão de ativos bilionários nas negociações com o BRB.

• Inquérito da CVM e investigação aprofundada nas relações entre Master-BRB-Reag.

• Convites aprovados pela CAE para ouvir autoridades e ex-dirigentes.