Justiça ou sombra dela? — Cinco condenados pelo assassinato de Marielle Franco após 8 anos
Justiça ou sombra dela? — Cinco condenados pelo assassinato de Marielle Franco após 8 anos
Oito anos depois, o STF condena os mandantes do crime que marcou a democracia brasileira — mas a pergunta sobre o tempo da justiça permanece.
Por Rico Russo | Atlas das Vozes
O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou hoje — por unanimidade — cinco envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, crime brutal que abala o Brasil desde 14 de março de 2018.
Após oito anos de dor, silêncio investigativo e manobras jurídicas, a Primeira Turma do STF definiu que os mandantes políticos do crime — João Francisco Inácio “Chiquinho” Brazão e seu irmão Domingos Brazão — arquitetaram a execução de Marielle por motivos que misturavam interesses políticos, paramilitarismo e intolerância civil. Os dois foram condenados a 76 anos e 3 meses de prisão.
Além deles, outros réus também receberam penas:
Ronald Paulo Alves Pereira, ex-policial militar, condenado a 56 anos, pelos homicídios e tentativa de homicídio.
Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, condenado a 18 anos por corrupção e obstrução da justiça.
Robson Calixto Fonseca, ex-assessor, recebeu 9 anos por participação em organização criminosa.
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz — os executores materiais já condenados anteriormente — foram parte essencial da prova que conectou os mandantes ao crime.
O julgamento durou dois dias e foi acompanhado pela família de Marielle e por movimentos sociais. O relator, ministro Alexandre de Moraes, afirmou que o crime foi uma execução política planejada, com articulação estruturada e tentativa de obstrução institucional.
O país ouviu as penas. Mas também ouviu o eco do tempo.
O que mais pesa não é apenas a sentença. É o calendário. Oito anos entre o disparo e a decisão final. Oito anos de sofrimento para as famílias. Oito anos para que o Estado concluísse o óbvio: houve crime político.
A defesa dos réus sustentou fragilidade nas provas e questionou a competência do STF. Alegaram perseguição política. Os condenados mantiveram postura reservada. Não houve confissão pública. O silêncio foi a estratégia.
A decisão foi unânime. Mas a demora não foi exceção. É padrão.
O sistema jurídico brasileiro é garantista. Direito de defesa amplo. Recursos. Contraditório. Mas quando o processo envolve poder político, influência institucional e milícias, a engrenagem parece funcionar em câmera lenta.
A condenação é histórica. Mas a lentidão também é.
Marielle virou símbolo. E símbolo não deveria precisar esperar quase uma década para virar sentença.
A pergunta que fica não é apenas quem mandou matar. É por que demorou tanto para o Estado admitir o que já era evidente.
Reuters — STF condena mandantes do assassinato de Marielle Franco (25/02/2026)
AP News — Detalhamento das penas e votação unânime
Agência Brasil — Início e andamento do julgamento no STF
White House Fact Sheets e cobertura internacional sobre repercussão política
O Estado finalmente falou.
Mas falou tarde.
E quando a justiça demora, ela também fere.
As penas são longas.
Os nomes estão registrados.
A decisão é histórica.
Mas oito anos não voltam.
O tempo não é indenizável.
Será que só essa pena é justiça?